Ele está convincente na pele de um hipocondríaco
Val Waxman (Allen) é um cineasta com dois Oscars na bagagem, mas há dez anos descartado pelo sistema hollywoodiano por causa de seus caprichos, como filmar em Nova York em preto e branco. Ele aprecia Cole Porter e Irving Berlin. É totalmente hipocondríaco, um dia sentido-se ameaçado pela febre aftosa, no outro pela peste negra, mais adiante apresentando alergia por oxigênio. No momento, Val filma um comercial de desodorantes num hipergelado Canadá. Mas aparece a ex-mulher (Téa Leoni) oferecendo a ele a direção de um filme policial de 60 milhões de dólares, A Cidade que Não Dorme Jamais. Depois de aceitar, dois problemas: a ex, que ele ainda ama, é namorada do produtor do filme. Além disso, e Val fica literalmente cego e passa a dirigir sem ver um palmo adiante do nariz, ajudado pelo intérprete chinês de seu diretor de fotografia.
Será que Woody Allen metaforicamente está acertando contas com os grandes estúdios? Não. E nem se deve procurar, nesta comédia sobre o cinema, qualquer ataque ressentido contra Hollywood e seu universo de perversidades. É satírico, com certeza, mas desprovido de furor assassino. Como caricatura, Billy Wilder e seu Crepúsculo dos Deuses e Elia Kazan com O Último Magnata bateram muito, mas muito mais forte. A verdadeira questão que vem permeando seu filmes mais recentes é ao mesmo tempo ingênua e complexa: o que é um verdadeiro artista? E para que serve ? O resultado desta busca solitária não parece muito otimista e parece se radicalizar de tempos paa cá. Mesmo alegrando o espectador, ele vem mascarando esta angústia sobre si mesmo e sobre a humanidade com uma constante fantasia. Hollywood Ending é um filme alegre sobre um homem triste, um filme eufórico sobre o desespero.
(C.E.L.J.)





