Ele é a cara do Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de abril de 1998
Telma Elorza 
César AugustoAldemir Martins: Se você dá as costas para o Brasil, ele te dá uma bananaEle traz na face a cara do Brasil. Nos traços do rosto estão a mistura de índios, brancos e negros. Só podia, nos traços feitos pelas mãos, retratar as cores do Brasil. Ele é Aldemir Martins, um pau-de-arara que saiu do Ceará para pegar a estrada do mundo. E a quem Londrina deve grande parte do novo acervo de obras do Museu de Arte. Foi ele que, conquistado pelos apelos dos amigos Ana Maria Barreto e Axel Hulsmeyer, da Sociedade Amigos do Museu de Arte de Londrina, conseguiu muitas doações. Eu não fiz nada. Só chamei as pessoas para participar - desconversa, humilde.
Aos 76 anos de idade e 50 de carreira, Aldemir Martins se define apenas como uma pessoa que sempre ficou de frente para o Brasil e que não consegue ignorar este imenso país tropical. Se você dá as costas para o Brasil, ele dá uma banana para você - brinca. Parar de trabalhar não está nos planos deste brasileiro. A aposentadoria é um negócio ruim porque a vida continua sempre em frente. E se você deixar de correr atrás, vai implodir a mente e deixar de existir - afirma.
Aldemir é um homem simples mas com requintes, como gosta de ressaltar. Adora cachaça, farinha de mandioca porém confessa que nunca conseguiu comer salmão. Não sei como tem gente que gosta disto. É ruim demais - brinca. Não dispensa, porém, um bom vinho, morar bem e uma televisão bem grande em sua sala. E gosto de fazer amigos. Sou um ser de amigos - afirma.
Ele conhece, em suas palavras, Europa, França e Bahia. Reside há muitos anos em São Paulo, onde se sente em casa mesmo que o cinza do concreto da megalópole não sirva de inspiração para sua obra. São Paulo foi feita por paus-de-arara como eu. Então estou no meio da minha gente - garante. Se não fosse um pintor, ele garante que seria um tocador de pandeiro, coisa que faz quase todos os domingos, em feiras na capital paulista, para fazer amigos. Sou um cara que faz da vida uma arte e a arte de vida - explica.
Aliás, a vida e a obra deste artista realmente se fundem. Aldemir, em todos seus anos de carreira, nunca abandonou a alegria de viver e a temática nordestina: a paisagem do agreste, as marinhas, o sol, as flores, os animais, a gente. Fez dela referência constante no desenvolvimento de uma linguagem plástica original, única, que o posiciona entre os mais importantes artistas brasileiros.
Nunca se deixou seduzir por modismos, fiel sempre a um princípio: Se como e bebo Brasil, só posso vomitar Brasil - aponta. A sua é a própria cor do País. É vermelha, roxa, verde, amarela, azul intenso. E se sua palheta não lhe dá as cores que precisa, ele inventa outra para retratar fielmente a intensidade e a luz do momento. Não liga para ismos em seu trabalho: A arte continua sendo o que sempre foi: boa e ruim. A vanguarda de hoje, amanhã é retaguarda. Eu apenas gosto de mostrar o que você gostaria de ver - lembra.
Aldemir Martins, com obras espalhadas no mundo inteiro, ficou rico? Não. Não dá para ficar rico. Eu ganho dinheiro para trabalhar. Não trabalho para ganhar dinheiro - conclui.


