Ele disse
A gente era artista de palco no circuito dos salões de baile de Liverpool e Hamburgo. É incrível o que a gente provocava quando tocava o rock puro, e não havia quem nos alcançasse na Grã-Bretanha. Mas foi chegar o sucesso, e o entusiasmo acabou. Brian Epstein botou a gente de terno, e fomos muito, muito longe. A gente se vendeu. A música morreu antes mesmo da turnê pelos teatros da Grã-Bretanha. Já estávamos nos sentindo uns merdas porque tivemos de reduzir as apresentaçõs de uma ou duas horas o que até nos agradava, de certo modo para vinte minutos, e repetir os mesmos vinte minutos todas as noites. O som dos Beatles morreu ali. E é por isso que nunca melhoramos como músicos. Nós nos matamos para obter o sucesso ... e foi o fim.
Eu tomo bolinha desde os quinze...não, dezessete anos. Desde que virei músico. É o único jeito de sobreviver em Hamburgo e tocar oito horas por noite. Os garçons nos serviam as pílulas e a bebida. Eu era um bêbado na escola de artes. Fui viciado em bolinha até um pouco antes de Help!, quando a gente se ligou em maconha e parou de beber. Simples assim. Sempre precisei de drogas para sobreviver. Os outros também, mas eu sempre consumia mais: tomava mais bolinhas e mais o que quer que fosse porque era mais maluco.
Eu já estou de saco cheio desse hippies agressivos ou o quer que sejam a geração de agora nervosos comigo. Na rua ou em qualquer outro lugar, ao telefone, sempre exigindo minha atenção, como se eu devesse alguma coisa a eles. Porra, não sou o pai deles. Vão para a porta lá de casa com a merda do símbolo da paz e esperam poder entrar, como um antigo fã dos Beatles. Ficam na ilusão de que têm sabedoria porque usam cabelo comprido. E é isso que me deixa mais irritado. Eles me assustam. Tem muito maníaco nervoso por aí vestindo a porra do símbolo da paz.
Sempre que a gente saía em turnê, na Grã-Bretanha ou onde quer que fosse, sempre tinha uns lugares reservados para deficientes e pessoas em cadeiras de rodas. Como a gente era famoso, tinha de receber os caras epilépticos ou sei lá o quê no camarim o tempo todo. Tínhamos de ser bonzinhos. Mas você quer ficar sozinho, e não sabe o que dizer. Geralmente falavam: Eu tenho o seu disco. Ou não podiam falar, algo assim. E queriam tocar na gente ... Era sempre a mãe ou a enfermeira que empurrava eles como se a gente fosse Cristo, essas coisas, ou como se tivesse uma aura em você que passasse pra eles. E acabou assim. Nós ficamos muito indiferentes. Era horrível.
Ouça, pessoas como eu têm consciência da assim chamada genialidade aos dez, oito ou nove anos. Eu sempre achei que era ... por que ninguém me descobriu? Na escola, não conseguem perceber que sou mais inteligente do que qualquer um ali? Que os professores também são burros? Que tudo que tinham era informação, do que eu não precisava, para me dar? Não tomei consciência disso na coisa dos Beatles. Ali, eu me perdi, era como estar no colégio de novo. Eu dizia para a minha tia: Você jogou fora as minhas criações. E nunca perdoei por não me tratar como um gênio quando era eu pequeno! Era óbvio pra mim! Por que não me colocaram na escola de artes? Por que não me ensinaram? Por que insistiram em fazer de mim um caubói, como todos os outros? Eu era diferente, sempre fui diferente. Por que ninguém me reconhecia? Alguns professores notavam e me encorajavam nisso ou naquilo, a desenhar ou pintar, a me expressar. Mas, na maior parte do tempo, tentavam me forçar a ser um dentista ou um professor de merda!
As pessoas que controlam, que estão no poder, o sistema de classes e toda essa besteira de panorama burguês são exatamente os mesmos, a não ser pelo fato de agora ter um monte de meninos delicados de classe média com cabelo comprido andando por Londres usando roupas da moda. E Kenneth Ryan estar ganhando uma fortuna com a palavra foda. Fora isso, não aconteceu nada. Mas todos nós fingíamos que tudo estava bem. Os mesmos f.d.p controlam as coisas, os mesmos sujeitos dirigem tudo. É a mesmíssima coisa! Eles armaram para a garotada. Nós crescemos um pouco, todos nós, e teve alguma mudança, a gente está mais livre e tal, mas ainda é o mesmo jogo. Nada mudou de fato. É igual! O tempo passou, e eles fazem exatamente as mesmas coisas, vendem armas para a África do Sul, matam os negros na rua. Pessoas vivem numa pobreza fodida, com ratos se amontoando sobre elas. É de fazer qualquer um passar mal, e eu também despertei para isso. O sonho acabou, é igualzinho, só que agora eu estou com trinta anos e muita gente tem cabelo comprido, é tudo.





