Ele disse
Não gosto da tendência de chamar uma área da criação de música popular no Brasil de MPB, e considerá-la como se fosse a parte elevada de algo que, na maioria, é vulgar e ruim . Isso é um erro total! Eu me sinto violentamente agredido por isso. Quer dizer que eu sou MPB e Raulzito e os Racionais MCs não são? Ao mesmo tempo, eu, oficialmente, estaria junto com Chico Buarque, Chico César, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Mas aí Daniela Mercury não é ou agora já quase é. Já o Chiclete com Banana não é. A turma que é MPB necessariamente estaria num nível superior de produção musical. Não acho! Não acho mesmo. As coisas estão erradas. O que se pode chamar de MPB é só uma coisa: a música popular que é feita no Brasil pelos brasileiros.
Uma das melhores coisas que vi ultimamente foi o show da Nação Zumbi. Fui ver sozinho em Santa Teresa. Achei maravilhoso; achei a banda a melhor coisa do mundo. Mas, outro dia, ouvi que não gostam do meu som. Eu disse: se é para fazer aquilo, então acho bom que não gostem do meu som. Porque, para mim, aquilo que a Nação Zumbi faz é tudo o que há de bom. Talvez seja a melhor banda do Brasil atualmente!
Os países são originais! Mas o fato de um país desse tamanho falar português e ter um autor como Machado de Assis no século 19 e um autor como Guimarães Rosa no século 20 faz do Brasil um grande segredo que nós guardamos e queremos revelar. É uma experiência única! Nossa confusão racial e o fato de falarmos português e sermos um país de dimensões continentais na América do Sul significam um acúmulo de desvantagens que só pode ser lido como uma graça. É tão grande o acúmulo de desvantagens, num país ao mesmo tempo tão interessante, que a gente é forçado a ler isso como uma benção.
Eu estou embebido dessa visão do Joaquim Nabuco. Venho lendo e relendo Minha Formação. Já reli muito! O Abolicionismo. Assim como fez Joaquim Nabuco, acho difícil, neste momento, não atribuir todos os horrores nacionais à escravidão que ele descreve como tendo formado o Brasil. Joaquim Nabuco atribuía à escravidão a estrutura do pensamento do homem brasileiro como ser social: é a sensação paralisadora que o brasileiro tem de que tudo se deve às autoridades oficiais; toda queixa deve ser feita contra elas; todas as exigências devem ser feitas a elas; quase nenhuma responsabilidade resta para o cidadão.
O primeiro disco de Raul Seixas é um dos melhores já feitos no Brasil uma obra-prima. Não havia quase nada feito por outros artistas brasileiros pode pensar nos maiores nomes de que eu gostasse mais. Havia muito pouca coisa que eu chegasse a gostar tanto quanto eu gostava de Ouro de Tolo. Porém, nunca vivi, como ele e muita gente viveu e vive, a vontade imediata de ser americano. Não foi assim comigo e com muitas outras pessoas da minha geração, como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Glauber Rocha, Cacá Diegues. Mas aquele sentimento mundial diante do que os Estados Unidos se tornaram se manifestou ainda mais fortemente nos países da América. Era a vontade de chegar à situação do americano. É como se a vida que podíamos levar não fosse a verdadeira vida. É como se através dos filmes, canções e reportagens nas revistas, a gente visse que ali é que se vivia a verdadeira vida.
Jorge Ben é um caso espetacular de saúde cultural, é rock com samba, um brasileiro preto do Salgueiro que terminou indo viver em São Paulo um período crucial da vida. Jorge Ben é mestre dos pagodeiros, rappers, tropicalistas e roqueiros. A gente encontra Jorge Ben nos neo-bossanovistas, nos discos do Milton Nascimento, nos pagodes, nos Racionais, nos meus discos. Desde os anos setenta, sempre gravo músicas de Jorge Ben. Os Paralamas do Sucesso gravam, todo mundo grava. Porque ele é uma solução espetacular. Dá uma sensação de saúde cultural sem os amparos do status de uma educação de alta classe média. Não é assim. Jorge Ben não é letrado: é um grande poeta, um grande solucionador cultural, um sujeito imenso.
Os jornalistas se comportam como artistas ultra-comerciais. Mas se dão o direito de criticar artistas que são, sob o ponto de vista profissional, muito mais responsáveis que eles! Os jornalistas se dão o direito de descartar a existência desses artistas como se eles, os artistas, fossem comerciais e os jornalistas não o fossem. O sujeito que critica não sabe redigir bem. Mas Daniela Mercury canta afinado, ensaia bem os números; Ivete Sangalo arrebenta cantando; Sandy é uma cantora perfeita, sob o ponto de vista técnico. Como Sandy é afinada, que ele saiba pelo menos escrever. Mas não! Ele é uma estrela da agressão e da opinião moderna. Só gosta de grupos de língua inglesa. Para ele, nada do que é brasileiro pode prestar jamais! Fazem personagens assim mas não apresentam sequer um produto comparável ao que Sandy e Júnior apresentam. Chitãozinho e Xororó cantam afinado, ensaiam bem os shows. Os artigos são mal escritos! Você vai ler: está errado o português! A idéia é primária, o português está errado e ele vai falar mal da Sandy? Vai falar mal da Ivete Sangalo? Não dá! É muito abaixo da Ivete Sangalo, como quem apresenta um produto que vou consumir.





