Elba Ramalho consolida liberdade artística em seu novo disco
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2019
Adriana Del Ré <br> Agência Estado 
Há tempos, Elba Ramalho é artista independente. Mais precisamente, como a cantora lembra, desde o disco "Qual o Assunto Que Mais Lhe Interessa?", lançado em 2007 - e com o qual ganhou seu primeiro Grammy Latino. Após 40 anos de estrada, a liberdade artística lhe traz a doce sensação de ser dona de seus próprios rumos. "O desvinculamento meu dos grandes selos foi para que eu ganhasse a liberdade", diz ela. "Acho que artista tem que ser livre. Não consigo entender como você pode ficar sempre atendendo à necessidade do mercado. Não tenho mais que provar nada. É aquela velha história: eu podia ter continuado a fazer, a cada ano, 'Banho de Cheiro 2, 3, 4'. Foi uma música que pegou, virou um grito do carnaval. Mas não estou preocupada com essa história."
E foi por passar a integrar a cena indie - mesmo preservando o status de grande nome do mainstream - que Elba pôde voar mais longe em termos de sonoridade. Ela pode, sim, fazer frevo, forró, entre outros ritmos que marcaram sua carreira, mas se (e quando) quiser. Essas experimentações já vinham, não por acaso, desde "Qual o Assunto Que Mais Lhe Interessa?" e se consolidam agora, em seu novo álbum, "O Ouro do Pó da Estrada", o 38.º da carreira, em que se percebe cristalizada uma observação bem colocada por Zélia Duncan sobre Elba no material distribuído para a imprensa: "Tem um pé no sertão da sua terra e o outro no mundo".
Ao longo de suas 13 faixas, "O Ouro do Pó da Estrada", aliás, trata muito dessa ideia do caminhar. A começar pela música que abre o disco, "Calcanhar", parceria de Yuri Queiroga e Manuca Bandini, com texto incidental de Bráulio Tavares, que já tinha sido gravada pela cantora pernambucana Ylana Queiroga, irmã de Yuri, e ganhou versão mais "pesada" na releitura de Elba. "É uma das minhas músicas preferidas. Gosto do resultado sonoro que a gente fez, um baião meio rock n' roll. Abri com ela, porque acho uma música forte, e é a coisa também do pisar, do caminhar."
Nesse mesmo diálogo sonoro, mas com uma leve atmosfera de carnaval pernambucano, "O Girassol da Caverna" vem na sequência, com dueto delicioso de Elba e Ney Matogrosso. A canção é de Lula Queiroga, e foi gravada no disco Baque Solto, de Lula e Lenine, na década de 1980.
No repertório, "O Girassol da Caverna" é seguida de outra regravação, "Girassol", canção que ficou famosa na interpretação de Toni Garrido à frente do Cidade Negra. Aqui o sucesso recebe nova roupagem, com introdução de cordas, e depois transitando entre o reggae e o xote.
Mais adiante, há outra aproximação interessante no roteiro do disco, entre a canção "José", de Siba (do Mestre Ambrósio) e "O Fole Roncou", de Luiz Gonzaga e Nelson Valença, como representações de duas gerações da música nordestina. "Eu queria essa diversidade de gerações, novas com antigas, com o que aprendi e com o que convivo."
"O Ouro do Pó da Estrada" traz outras pérolas, como Oxente, música que Marcelo Jeneci finalizou com Chico César especialmente para o disco; "O Mundo", de André Abujamra; "Se Tudo Pode Acontecer", de Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, João Bandeira e Paulo Tatit; "Na Areia", de Juliano Holanda, segundo Elba, "uma das grandes promessas da cena musical de Pernambuco". Vale ressaltar que, nesse processo de "desacomodar", os produtores do disco tiveram papel importante, sobretudo Yuri Queiroga, que desafiava Elba e ela, instigada, embarcava em suas ideias. "Eu como artista quero caminhar. Posso cantar Chico Buarque, ou Lula e Lenine, ou Zé Ramalho, inéditas, ou só forrozinho simples. A essa altura, acho que posso me dar a esse luxo. A gente quer surpreender."


