São Paulo, 27 (AE) - Em 1978, Chico Buarque defendia o sotaque nordestino da jovem cantora Elba Ramalho na montagem da sua àpera do Malandro, no Teatro Ginástico, na Rua Graça Aranha, no Rio de Janeiro. Havia quem achasse que aquela coisa agreste de Elba não combinava bem com um musical sobre a malandragem carioca.
"Mas ele queria mesmo é que eu cantasse rasgado, gritado", lembra Elba, que gravou o primeiro disco, um ano depois, por insistência de Chico. Estreou cantando "O Meu Amor" no disco dele. Agora, 20 anos depois, aos 47 anos, ela festeja a vitória na "nova" carreira artística - a de cantora - com um CD duplo, Solar, no qual canta todos os parceiros que teve ao longo desse período. E festeja também sua permanência.
"Apesar de ter sido classificada como cantora regional, eu era atriz, cantei muito Kurt Weill no Rio e também sou cantora de música popular brasileira", ela diz. "Tenho orgulho de poder entender Tom Jobim e Jackson do Pandeiro; eu me reflito em muitos espelhos", afirma a cantora. Solar, disco metade ao vivo, metade em estúdio, não só reflete essa condição multifacetada de Elba Ramalho, como é uma grande festa musical, dividida em duas partes bem distintas. O disco gravado em estúdio refaz o percurso do aprendizado de Elba, desde os tempos em que corria o País com uma companhia de teatro (Kukukaya é uma composição de uma antiga companheira de palco, Cátia de França, nos idos de 1974) até algumas brincadeiras atuais e despretensiosas (como "Choveu Sorvete", versão de Carlinhos Brown para uma canção caribenha). Ela abre o disco com "A Palo Seco", hino antiimperialista de Belchior, compositor nordestino que ela julga um dos mais importantes da sua geração. A versão em estúdio tem uma constelação de parcerias: Chico Buarque (o patrono inicial), Nana Caymmi, Lenine, Dominguinhos, Alceu Valença, Margareth Menezes, Gerônimo, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho. E músicos experimentados, como Jaques Morelenbaum, José Américo Bastos, Dominguinhos, Arthur Maia.
No todo, Chico Buarque é o compositor mais festejado pela intérprete. Por motivos óbvios: ele é quem deu o pontapé inicial em sua carreira, em 1979. Mas pelo menos uma das canções que ela interpreta de Chico, "Palavra de Mulher", tem uma história que merece ser contada. O compositor teria ficado de trazer a música para as filmagens da "àpera do Malandro". Na última semana, ainda não tinha aparecido, o que deixou a cantora angustiada. "Uma noite ele chegou, botou um fone de walkman no meu ouvido e eu me acabei de chorar", ela lembra. "Perguntei: isso é tudo meu?" E Chico disse: "É, demorei, mas cheguei."
O CD ao vivo é melhor ainda. São registros gravados em Salvador e no Festival de Montreux. "Ali eu trabalho com o que está mais ligado à minha essência, à minha origem musical", diz Elba. São 14 canções turbinadas, movidas a forró, baião, gafieira, sanfona, zabumba, triângulo. Uma farra. "Eu passo a vida cantando, é o que eu sou, é a minha personalidade", diz ela. "É por isso que estou fazendo esse disco comemorativo - para festejar estes 20 anos de uma personalidade intacta, por não ter me perdido em viagens sem rumo."
Amanhã ela estréia o show desse disco memorável no Canecão, no Rio. No dia 18, estará em São Paulo, no Palace, em show dirigido por Jorge Fernando. Contratada há um ano para o réveillon do hotel Transamérica Ilha de Comandatuba, Elba vai entrar no ano 2000 cantando. É de fato a mais solar das cantoras brasileiras - e sem a afetação e o sorriso fake da axé music.

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