Elas também sonham com a Copa
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2002
Jackeline Seglin<BR>Reportagem Local 
Meninas do futsal torcem pelo penta, analisam a atuação do Brasil no Mundial de futebol e falam sobre as expectativas numa área ainda dominada pelos homens
Dizem que elas não entendem nada de bola e que, no máximo, dão palpites sobre jogos e jogadores... Mas parece que a história não é bem assim. As mulheres estão mudando o contexto com a atuação nos campos e quadras. Elas agora formam seus próprios times, vão a campeonatos e começam a representar o Brasil nas recentes competições internacionais.
Modalidade nova em termos de competição, o futsal feminino já tem uma seleção brasileira para representar o País nas quadras. A base do time está em São Paulo, mas três londrinenses fazem parte da equipe. Elas semiprofissionais integram o time do Grêmio/Leite Líder, única equipe de futsal feminino da cidade.
O Grêmio/Leite Líder foi formado há 10 anos, com jogadoras, técnica, auxiliar e supervisora. No meio de tanta mulher, há também um único homem, o preparador físico Eduardo Finavaro, que prefere apenas ouvir os palpites e opiniões das meninas. Esse time é octacampeão paranaense.
A técnica Vanda Sanches é supervisora da seleção. Na quadra, as londrinenses Jayne e Naná reforçam a equipe nacional. Além delas, outras 11 garotas do Grêmio se reúnem na quadra para treinar... e mostrar que sabem jogar bola.
Em final de Copa do Mundo, o bate-bola é com essas meninas. Enquanto não têm sua própria Copa, elas sonham com o 1º Mundial de Futsal Feminino, previsto para 2003, e com a primeira participação dessa modalidade na Olimpíada de Inverno, em 2006.
O time do Grêmio/Leite Líder é formado por jogadoras na faixa etária dos 15 aos 33 anos. Algumas já torceram em outras Copas e vibraram com craques como Zico, Sócrates, Maradona, Platini... Outras ainda são novinhas e não conhecem quase nada antes da época dos Ronaldinhos. Mesmo assim, elas avaliam a atuação dos craques brasileiros que fazem hoje a final da Copa 2002.
Apesar da pouca idade, elas têm suas dicas para melhorar o rendimento da seleção. Tati, 18 anos, acha que o time está legal, mas Ricardinho tem que entrar urgente no meio de campo para dar mais toque de bola à equipe. Já Vanessa, 15, tiraria Roque Júnior, que não está se entrosando com os demais zagueiros. Cíntia, 17, diz não haver nada de errado com a zaga brasileira. O ataque é melhor e por isso se sobressai. Só isso.
Jayne, 34, uma das mais experientes do time londrinense, avalia que o Brasil chegou desacreditado na Copa, mas acabou se encontrando em campo. Apesar de ter enfrentado times tecnicamente fracos na Copa, a Seleção cresceu muito dentro da competição e é, sem dúvida, o maior candidato ao título, comentou Jayne, antes da decisão neste domingo. Ela joga como pivô (ataque).
Aliás, quando o assunto é a posição dos craques da seleção, as meninas tratam logo de escalar seu preferido, fazendo uma analogia à função que ocupam dentro da quadra. Jayne salienta que com Rivaldo jogando na frente a equipe está melhor. Sem o Ronaldinho Gaúcho não gostei como ficou. É melhor voltar o ataque com Rivaldo e Ronaldo.
A atuação de Felipe Scolari quem avalia é a técnica Vanda Sanches, 38. Para ela, Felipão vem se comportando bem enquanto treinador. Ele levou um grupo bom, no qual confia. E os jogadores também acreditam no seu trabalho. Na Copa, ele tem trocado jogadores em campo e deixado a motivação em alta. Sempre deixa uma expectativa de quem vai escalar. Felipão sabe jogar este tipo de torneio. Vanda Sanches pondera ao dizer que o técnico brasileiro levou um pouco de sorte, claro. Mas para chegar à final não basta apenas elenco. É preciso sorte e estrela. E isso ele tem.
Mas o esquema tático? Vanda Sanches não jogaria no 3-5-2. Ela prefere o 4-4-2 e faz sua escalação: Marcos, Cafu, Edmilson, Roque Júnior e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson, Ronaldinho e Ricardinho; Rivaldo e Ronaldo.
A ala esquerda Vanessa, que joga na posição similar à de Roberto Carlos, garante que o lateral é um dos melhores do mundo na posição e está muito bem escalado. A pivô Tati também está confiante nos atacantes Ronaldo e Rivaldo.
A mulherada está sabendo mesmo palpitar num assunto que até então era de domínio masculino? Para Jayne, a relação evoluiu. As mulheres estão entendendo melhor de futebol, não ficam só olhando as pernas bonitas dos jogadores, brinca. Hoje elas se interessam por táticas e regras, seja no desenvolvimento profissional enquanto jogadoras ou por lazer, como torcedoras.
E quando chegar a vez delas? Primeiro é bom lembrar que as mulheres tiveram que passar por barreiras e preconceitos. A reação das pessoas em relação às jogadoras de futebol é outra. O preconceito hoje é raro. De uns anos para cá o futebol feminino cresceu muito, é só verificar os campeonatos. Só tem preconceito hoje quem quer, comenta Tati.
Na opinião das meninas, o mito das dificuldades típicas das mulheres que podem atrapalhar na hora de entrar no jogo também é ultrapassado. Coisas de mulher?... Cólicas, unhas pintadas, fragilidade... Deixa prá lá, é bobagem. O único porém, apontado pela pivô Jayne, é que a musculatura feminina ainda não aguenta os trancos de um jogo no campo. Nisso a gente precisa melhorar bastante. Os treinamentos ainda não são suficientes para suportar um grande número de jogos, explica Jayne, que já teve experiência em jogos de campo junto com Tati e Ellen. No ano passado, elas formaram o time que conseguiu o terceiro lugar para Londrina nos Jogos Abertos do Paraná.
Essas garotas também têm seus sonhos. Tati acredita que o futsal está evoluindo e por esse motivo dá para pensar em crescimento pessoal. Foram os Jogos Abertos, quem sabe podem vir as Olimpíadas.... Para Jayne, a idéia é sonhar sempre. Apesar da idade avançada para jogar, sonho em disputar o 1º Sulamericano no segundo semestre. Já participar de uma Olimpíada... só se for na comissão técnica, diz a pivô da Seleção.
Enquanto a vez delas não chega, a torcida é por eles. Para o jogo de hoje, Vanessa, Carla e Néia, que moram em uma república e assistem às partidas em grupo, devem preparar uma torcida especial pelo penta. A idéia é programar para todo mundo do time assistir junto, diz Vanessa.


