Elas por elas
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de setembro de 2012
Márcio Maio <br> TV Press 
O movimento de renovação de autores na Globo continua firme e forte. Prova disso é que ''Cheias de Charme'', dos estreantes Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, nem acabou e a emissora já aposta em uma nova dupla para lançar em seu time de roteiristas principais. O jornalista João Ximenes Braga e a escritora Cláudia Lage assinam o texto de ''Lado a Lado'', novela de época que substitui ''Amor Eterno Amor'' na faixa das 18 horas a partir de amanhã.
A trama explora contrastes que, sob a direção de núcleo de Dennis Carvalho e geral de Vinícius Coimbra, mostram que as necessidades das pessoas não devem ser medidas apenas por suas condições financeiras e sociais. E a escolha por retratar o período histórico após a Abolição da Escravatura não se deu à toa. ''Fomos alfabetizados assistindo a 'Escrava Isaura'. Para mim, novela de época é a narrativa mais elementar que existe na memória'', argumenta João, que conheceu a colega Claudia durante uma oficina de roteiro na Globo.
A história é centrada nos dramas de duas mocinhas. Isabel, personagem de Camila Pitanga, é uma jovem batalhadora que trabalha desde os 14 anos. Sabe ler e até fala francês - idioma que aprendeu com a patroa Madame Besançon, participação especial de Beatriz Segall -, mas passa por vários problemas para viver seu amor com o capoeirista e barbeiro Zé Maria, de Lázaro Ramos. E, assim como a amiga Laura, vivida por Marjorie Estiano, luta por sua independência e liberdade.
Mas, no seu caso, a luta tem um significado a mais: ''Lado a Lado'' se passa em 1904, 16 anos após a Abolição da Escravatura. Ou seja, retrata a busca pela dignidade de um grupo de negros que foi libertado, porém não aceito por todos na sociedade. ''Esse não é o foco principal, mas é claro que é um assunto que será mostrado. Sutilmente, mas não passará em branco'', avisa Camila.
Na verdade, o público acompanhará o início da amizade entre Isabel e Laura, já que as duas se conhecem no dia de seus casamentos, na sacristia da igreja. Sendo que a primeira, que deseja o matrimônio, fica à espera do noivo, que é preso antes da cerimônia. Já Laura, que não está certa de sua escolha, acaba dizendo o ''sim''.
Laura vive às turras com a mãe Constância, mais uma vilã de Patrícia Pillar, que viveu a inescrupulosa Flora de ''A Favorita'' em 2008. A menina quer trabalhar, estudar e, então, se tornar escritora. Mas como seu pai perdeu o título de Barão com a Proclamação da República e também o domínio em seus negócios, é o casamento dela com o ricaço Edgar, o noivo filho de senador interpretado por Thiago Fragoso, a principal esperança de reerguer a família. Mesmo que a união seja contra a vontade de ambos. ''Na verdade, eles se amaram. Mas ambos têm dúvidas se essa é a melhor coisa a fazer. O mais legal é que essa é a história de duas pessoas que se apaixonam de novo, depois que se casam nessa sensação de obrigação'', adianta Thiago.
Para retratar o Rio de Janeiro de 1904, a equipe de ''Lado a Lado'' teve dificuldades em encontrar na própria cidade construções que conservassem características da época. Por isso, as primeiras cenas foram rodadas em Petrópolis, na Região Serrana fluminense, e também em São Luís, capital do Maranhão. Petrópolis serviu para ambientar os bairros do Catete e Botafogo, na Zona Sul do Rio, onde ficam os casarões coloniais da trama.
Já São Luís virou cenário para contar a parte da história que se passa na Gamboa, região central da cidade. ''Petrópolis tem palácios e casarões bem preservados e o centro histórico de São Luís tem uma arquitetura semelhante a do Rio de 1904'', explica o diretor geral Vinícius Coimbra.
Por se tratar de uma trama de época, o elenco já imagina que não será fácil rodar diversas sequências externas de ''Lado a Lado''. O figurino - que conta com um acervo de 900 peças e é assinado por Beth Filipecki - é repleto de roupas com diversas camadas, principalmente o das mulheres que pertencem à parte rica da história.
Além disso, luvas, chapéus, botas e diversas ornamentações serão bastante utilizados. ''Figurino de época é sempre muito elaborado. Era preciso estar bem vestido para se fazer bons negócios nesse período. Homens que usavam chapéus, por exemplo, eram sinônimos de pensadores, de donos do poder'', pontua Beth.
Apesar de ser assinado por uma dupla de estreantes, o texto da novela passa pela aprovação do experiente Gilberto Braga, com quem João Ximenes Braga já trabalhou em ''Paraíso Tropical'' e ''Insensato Coração''. Gilberto, aliás, faz questão de deixar claro o quanto é necessária essa renovação no grupo de escritores dos folhetins. ''Não dá para ficar com a mesma equipe o resto da vida. E eles têm toda consciência disso'', constata. Mas o supervisor jura que praticamente não tem trabalho com os dois atuais pupilos. ''Não pedi que reescrevessem uma linha. Dou palpites para o futuro, digo que acho melhor evitar uma cena assim ou assado, mas não fiz quase nada'', garante.


