Elas não cantam, miam
Nelson Sato
De Londrina
O grupo B*Witched, o trio brasileiro Beyond Pink e a cantora e atriz norte-americana Jennifer Lopez lançam seus primeiros discos. E comprovam que beleza e talento nem sempre andam de mãos dadas
A natureza foi generosa com elas. Mas ostentar uma anatomia privilegiada, não livra ninguém de gerar deformidades aos borbotões - pelo menos na praia da música pop, onde o talento importa menos do que uma imagem bem empacotada.
O grupo irlandês B*Witched, o trio brasileiro Beyond Pink e - em menor grau - a cantora e atriz norte-americana Jennifer Lopez parecem se encaixar no perfil. Com o lançamento de seus respectivos discos de estréia, muito do entusiasmo provocado por seus predicados físicos começam a cair por terra já nos primeiros muxoxos vocais.
Somos quatro garotas que decidiram formar uma banda - proclamam as gurias irlandesas no texto de divulgação distribuído à imprensa pela gravadora Sony Music. Não queremos seguir apenas um caminho. O objetivo é ampliar nossos conhecimentos. Desejamos, de coração, que as B*Witched sejam sinônimos de movimento e muita alegria.
Bem, elas estão conseguindo realizar seus sonhos. Juntas há dois anos e meio, as gêmeas Edele e Keavy Lynch e as amigas Sinead OCarrol e Lindsay Armaou já venderam mais de 2 milhões de cópias de seu primeiro CD emplacando consecutivamente os singles Cest La Vie, To You I Belong e RollerCoaster entre as dez mais na parada de sucessos do Reino Unido.
O pop-baba, como se vê, só enjoa adultos. Púberes adoram. Lá, dizem, o B*Witched ameaça o reinado das Spice Girls e All Saints, duas bandas também formadas por meninas e cujas fórmulas musicais pouco se distinguem da atual sucessora. No CD a faixa de abertura Lets Go chega a incorporar a batida nervosa do drumnbass a extratos de música irlandesa, mas nada que vá melar a sequência de baladas insossas e pitadas sacolejantes.
No começo do ano, o quarteto excursionou pelos Estados Unidos ao lado do NSync e atualmente estão em turnê com o 98 Degress. Os dois grupos, vale notar, são formados por meninos e seguem as mesma notas musicais dirigidas para pré-adolescentes - com predominância do r&b adocicado. Não por acaso, Edele e Keavy são irmãs de Shane, um dos rapazes do Boyzone, também de idêntica linhagem.
Mas se as moçoilas da Irlanda pelo menos cantam, o mesmo não se pode dizer das ninfetas brasileiras do Beyond Pink, que passam vexame fazendo mímica em cima das faixas do CD Barbie. O disco foi lançado no ano passado nos Estados Unidos, gravado por músicos anônimos de estúdio, com a intenção de auxiliar na promoção da Barbie, a boneca mais popular do mundo.
O produto resultou de uma parceria entre a Mattel, a famosa empresa de brinquedos e detentora da marca Barbie, e a gravadora Sony Music. Pela propaganda, as doze faixas são interpretas por Barbie e suas amigas Christie e Teresa. Ocorre que para badalar o lançamento, a subsidiária brasileira da Mattel resolveu contratar três adolescentes para encarnar as bonecas.
Assim, três modelos da agência Elite passaram a representar o papel divulgando o CD em shows, fotos e programas de TV em mais uma típica armação da indústria fonográfica. Mas convém espalhar a notícia, antes que uma ou outra fã desavida passe a acreditar na farsa e repita o mico de dez anos atrás, quando a dupla norte-americana de mentirinha Milli Vanilli enganou todo mundo com seus play-backs chegando a ganhar um Grammy na categoria de grupo-revelação.
Diante de tanta picaretagem, é até um alívio saber que a atriz Jennifer Lopez (norte-americana filha de pais porto-riquenhos) realmente expõe uma genuína veia musical em seu álbum On The 6, também lançado pela Sony. Mas desconfiança, no caso, é regra. Como se sabe, não é de hoje que essa história de gente de cinema, novela ou teatro tentando a carreira musical termina em canastrice.
Mas Jennifer, o bumbum mais comentado de Hollywood, dá o seu recado dentro dos limites do pop desprovido de ambições. O público a aprovou, a ponto de inundar as imediações da loja Virgin no dia do lançamento do disco no centro de Manhattan, em Nova York. Um número estimado de 20 mil fãs teria se acotovelado para arrancar um autógrafo da atriz-cantora, depois que o single promocional If You Had My Love alcançou o topo da parada Hot 100 da revista Bilboard.
O repertório inclui baladas (Shouldve Never, Coud This Be Love, Promise Me Youll Try e Talk About Us), rap domesticado (Feelin So Good), dance music (Waiting For Tonight), latinidades (Lets Get Loud, No Me Ames e Open Off My Love) e r&b (Too Late e Its Not That Serious). Todas as faixas, com exceção de uma ou duas, têm apelo radiofônico e poderiam tranquilamente disparar nas paradas.
Mas, curiosamente, o disco fica intragável por excesso de sacarina já na segunda audição. Esta cópia mesmo, que serviu para escrever este comentário, vai direto para a latinha de lixo.





