Ela disse
Ser atriz ''Somos essencialmente contadores de histórias. Antes de exercer o ofício em si, antes de bordar a palavra, antes de tudo, contamos histórias. Pode ser meio pretensioso falar isso. Mas acho que contamos histórias para mostrar como viver ainda é uma aventura legal. É uma aventura. Mas é legal. A arte serve para dar vontade de viver. Viver mais, e bem, e bonito, com poesia, aproveitar as relações humanas. Eu sei, está um caos. Mas vamos sobreviver ao caos. Talvez eu seja otimista, mas acredito nisso. Outro dia ouvi de uma senhora 'olha aquela moça que imita a vida!' Fiquei comovida.''
Compromisso ''Quando a gente faz um trabalho, está comprometido com o que está dizendo, queira ou não queira. A televisão parece isentar a gente, porque é indústria. Mas de alguma maneira você assina a novela que faz. A gente responde pelo que está falando. Não somos só um veículo, um piano que alguém toca. Nós somos o pianista que toca aquilo daquela maneira. Só acredito no artista que chafurda naquilo que faz. Cada vez acredito menos nisso - ah, eu fui lá, fiz o meu e fui embora. Às vezes acho até que seria melhor pensar assim. Mas uma vez tendo tido um grupo, fica difícil.''
Televisão ''A televisão não tem tempo. Eu vejo pelo 'Retrato Falado'. O ator não pode demorar para achar o tom. Então a gente chama o ator para fazer aquilo que ele faz em dois segundos, porque televisão é dois segundos. É uma pena, porque bons atores deixam de ser aproveitados. Em 'Cristina Quer Casar' (filme do diretor Luiz Villaça, o mesmo de 'Retrato Falado'), o Fábio Assunção mostrou-se um comediante maravilhoso, mas quem vai saber? Na televisão ele é o galã. Ainda assim, posso dizer que achei um lugar querido dentro dessa indústria. 'Retrato Falado' é como um filho do qual tenho muito orgulho.''
Trabalhar em Grupo ''Como atriz, passei pelo Grupo Tapa. Fazia parte da turma dos Juquinhas, aprendizes, não apitávamos na organização. Mas eu via como todos trabalhavam ali para aquilo funcionar. Depois, eu fundei o Cite Teatro, o meu grupo. E vi crescer na minha mão, do nada, teatro, e bom teatro, teatro possível. A gente fez a primeira peça 'As Desgraças de uma Criança', de Martins Pena com o dinheiro da rifa de um relógio. Com esse dinheiro compramos pano para fazer uma capa a gente juntava três cadeiras, vestia a capa e tínhamos um sofá em cena e feltro para fazer uns biombos. A gente andava a pé para vender espetáculo em escolas. Depois fizemos 'O Primo da Califórnia' (Joaquim Manuel de Macedo) e já pagamos um pintor para fazer os telões. No 'Defeito de Família' (França Junior) tínhamos músicos ao vivo, flauta e violão. Foi a peça com a qual menos ganhamos dinheiro, porque tínhamos de pagar os músicos, mas era o requinte do Cite Teatro. Com esse dinheiro a gente pagava as aulas da Ana Frota (voz) e da Helena Varvaki (corpo). Claro, éramos novos, morávamos com os pais. Todo mundo tinha casa e roupa lavada. Mas o Cite Teatro me deu felicidade e autonomia. Se precisar, sei que essas mãos fazem um figurino, um cenário.''





