É muito comum durante a Semana Santa as emissoras de televisão apresentarem os filmes que retratam a Paixão de Cristo. Há uma frase marcante no momento em que Jesus, já crucificado, pede que Deus perdoe a seus algozes. Ocorre, porém, que os profissionais que traduzem os diálogos o fazem equivocadamente. A maioria ‘passa’ para o Português a seguinte frase: "Pai, perdoai-os; eles não sabem o que fazem".
Na Língua Portuguesa, os verbos são, sintaticamente, divididos em ‘transitivos ou intransitivos’ e ‘de ligação’. Estes indicam qualidade ou estado do sujeito; aqueles, ação ou fato. Os transitivos podem ser diretos, quando se ligam a um complemento sem preposição, ou indiretos, quando se ligam por meio de uma preposição (a, de, por, para, em, com, etc)
Quando o verbo for transitivo direto e tiver como complemento um substantivo, este poderá ser substituído por um destes pronomes: o, a, os, as, dependendo do gênero e do número dele. Por exemplo: "A empresa pagou as dívidas = A empresa pagou-as"; "Agradeci o convite = Agradeci-o"; "O filho aceitou as ordens do pai = O filho aceitou-as".
Quando o verbo for transitivo indireto com a preposição "a" e tiver como complemento um substantivo, este poderá ser substituído por lhe, lhes: "A empresa pagou ao advogado = A empresa pagou-lhe"; "Agradeci aos meus amigos o convite = Agradeci-lhes o convite"; "O filho obedeceu às ordens do pai = O filho obedeceu-lhes".
Há três verbos especiais quanto ao uso desses pronomes: pagar, perdoar e agradecer. Eles tanto são transitivos diretos quanto indiretos, porém só admitem como complemento sem preposição o que foi pago, perdoado ou agradecido, ou seja, "a coisa", e só aceitam como complemento com a preposição "a" a pessoa a quem a coisa foi paga, perdoada ou agradecida. Só se pode pagar algo, perdoar algo e agradecer algo, pagar a alguém, perdoar a alguém e agradecer a alguém e pagar algo a alguém, perdoar algo a alguém e agradecer algo a alguém.
Claro está, então, que, diante desses três verbos (pagar, perdoar e agradecer), só se pode usar "o, a, os, as" em substituição a coisas e "lhe, lhes" em substituição a pessoas. Diante de outros verbos "lhe e lhes" também podem substituir coisas, como ocorreu em "O filho obedeceu às ordens do pai calmamente".
A frase atribuída a Jesus Cristo tem como complemento do verbo "perdoar" pessoas, por isso o adequado é "Pai, perdoai-lhes".
Alguns podem achar estranho o uso do verbo na segunda pessoa do plural (perdoai) porque se refere a uma pessoa só – Pai. A justificativa para esse uso se denomina "plural majestático", que consiste no uso do pronome "nós" em vez de "eu", muito comum aos estadistas, imperadores e afins. Em vez de dizerem, por exemplo, "fiz um grande esforço...", dizem "fizemos um grande esforço...". Esse plural tem correlação com "vós", usado no lugar de "tu" ou "você" quando o interlocutor é de suma importância.
Outra inadequação à língua culta se acha no uso do verbo "fazer" no presente do indicativo, que indica ação corriqueira. Dizer ‘Eles não sabem o que fazem" é dizer que eles nunca sabem o que fazem. A frase atribuída a Jesus, no entanto, quer registrar que naquele momento – e não sempre – eles não sabiam o que estavam fazendo. Os verbos que indicam ação ocorrendo no exato momento da fala são "estar" no presente do indicativo" e o verbo principal no gerúndio, terminado em "-ndo". Por isso o adequado é "Pai, perdoai-lhes; eles não sabem o que estão fazendo".

www.gramaticaonline.com.br
[email protected]

mockup