No dia a dia criamos dizeres que não condizem com a norma culta da Língua Portuguesa. Isso é que torna todo idioma dinâmico e rico, não engessado no tempo. É por isso que a Língua de hoje é diferente da dos tempos de Pero Vaz de Caminha ou mesmo da de quarenta e poucos anos atrás, quando se escrevia "professora" com acento circunflexo, e da de setenta anos, quando se escrevia "farmácia" com "ph". Nós mudamos a língua a cada gíria inventada pelos jovens ou a cada termo técnico acrescido a uma ciência.

Ocorre, porém, que não se deve aceitar tudo que é criado pela dinamicidade da linguagem cotidiana no exato momento em que acontece. Há muitas expressões que distorcem a sintaxe, que é, segundo o dicionário Houaiss, "a parte da gramática que estuda as palavras enquanto elementos de uma frase, as suas relações de concordância, de subordinação e de ordem".

Um exemplo disso é o uso indiscriminado do vício de linguagem denominado de "gerundismo", que consiste em usar a forma nominal de verbos terminada em "-ndo" em orações nas quais não se admite a continuidade da ação, que é a característica dessa forma: o gerúndio indica continuidade de ação. Se se diz que "estava conversando" com alguém, significa que se tratava de uma ação dinâmica, não estagnada; que havia continuidade na ação de conversar.

Por isso, consideram-se inadequadas ao padrão culto da língua frases como "O gerente não vai poder estar atendendo o senhor agora", "O senhor poderá estar ligando mais tarde" ou ainda "Nós não poderemos estar trocando seu produto". O adequado seria "O gerente não poderá atender o senhor agora", "O senhor poderá ligar mais tarde" e "Nós não poderemos trocar seu produto", além de outras maneiras que também seriam adequadas.

Com esse hábito de construir frases com o gerúndio, um tempo verbal foi criado inadequadamente, com o mesmo valor sintático do tempo denominado de pretérito perfeito composto do indicativo. Este tempo – o adequado – é a junção do verbo "ter" ou "haver" no presente do indicativo (tenho, tem, temos, têm / hei, há, havemos, hão) com a forma nominal de verbos denominada de particípio, terminada em "-ado" ou "-ido" ou outras variantes. Esse tempo verbal indica a existência de uma ação que ocorre cotidianamente. Por exemplo, quando um indivíduo pergunta a seu interlocutor "Onde você está trabalhando agora?" não deveria estranhar se a resposta fosse simplesmente "Não estou trabalhando!", pois "estar" no presente do indicativo (estou, está, estamos, estão) com "gerúndio" indica uma ação ocorrendo no exato momento da fala: "Eu estou escrevendo este texto agora", "Você, leitor, está lendo o texto agora". O que o agente da pergunta quereria saber é o local em que o seu interlocutor "tem trabalhado ultimamente" ou ainda "onde ele trabalha".

Outra estrutura considerada inadequada ao português padrão é a junção do verbo "vir" no presente do indicativo (venho, vem, vimos, vêm) com gerúndio, também para indicar ação ocorrida cotidianamente: "O Governo brasileiro vem sofrendo ataques da oposição"; "O uso de cores berrantes vem ganhando espaço nos desfiles de moda". Essas frases indicam que uma ação ocorre cotidianamente, ou nos últimos dias ou semanas.

O uso devido é o do pretérito perfeito composto do indicativo: "O Governo brasileiro tem sofrido ataques da oposição"; "O uso de cores berrantes tem ganhado espaço nos desfiles de moda" ou ainda "O Governo brasileiro há sofrido ataques da oposição"; "O uso de cores berrantes há ganhado espaço nos desfiles de moda", frases jamais usadas no português brasileiro, mas comuns no português europeu.

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