Há uma propaganda na televisão que apresenta uma música cujos primeiros versos dizem o seguinte: "O que faz você feliz? Você feliz o que é que faz?". Um jogo de palavras em que há uma figura de linguagem denominada de ambiguidade, que também pode ser denominada de anfibologia.
Nesta semana, iniciaram-se as aulas dos cursos pré-vestibulares, e os jovens alunos passaram a se preocupar com o que pode ser objeto de questões dos concursos pelo Brasil afora. As figuras de linguagem se lhes apresentam constantemente. Como a propaganda citada é veiculada em todas as regiões brasileiras, pode transformar-se num teste a eles. Analisemo-la, então:
Sintaticamente, o verbo "fazer" é classificado como verbo transitivo direto, aquele que exige um complemento paciente sem preposição – "Que faz, faz algo" ou "Quem faz, faz algo", ou seja, "alguma coisa faz que outra coisa aconteça" ou "alguém faz que algo aconteça".
A frase "O que faz você feliz?" pode ter a seguinte análise sintática: O sujeito, ou seja, o termo que faz algo, pode ser representado pelo pronome interrogativo "que", que está acompanhado do "O", o qual poderia ser descartado – "Que faz você feliz?". Isso significa que "algo – representado pelo "que" – faz você feliz"; e vem a pergunta: "o quê?". O verbo "fazer" exige um complemento paciente: "você", que passa a ter a qualidade de feliz: "Algo faz que você seja feliz".
A inversão dos termos – "Você feliz o que é que faz?" sinaliza taxativamente que pode haver uma mudança de sentido. Vejamo-la com outra análise possível: O sujeito – aquele que faz algo – também pode ser representado por "você", que está feliz: "Você, quando está feliz, faz algo"; e vem a pergunta "o quê?", que novamente está representado pelo pronome interrogativo "que" – agora complemento de fazer – acompanhado do "o", que, no meio ou no fim da frase, não pode ser retirado, e da expressão "é que", denominada de "partícula expletiva, ou de realce", que pode ser retirada: "Você feliz o que faz?".
Em ambas as estruturas – "O que faz você feliz?" e "Você feliz o que é que faz?" – as duas interpretações são válidas. Tanto se pode interpretar que o autor da letra quer saber "quais são as coisas que fazem você feliz" como "quais são as coisas que você faz quando está feliz". Essa é a ambiguidade – ou a anfibologia – das frases, o que pode ser perguntado em algum exame pré-vestibular.
Outro termo que pode ser objeto de uma questão de qualquer concurso é a palavra "que". Nas frases apresentadas, há duas classes distintas do "que": o pronome interrogativo e a partícula expletiva.
O pronome interrogativo é o que faz as vezes do sujeito ou do complemento do verbo. Por exemplo, na pergunta "Que você comprou?", o pronome interrogativo "que" é complemento do verbo comprar: "Você comprou algo". Na pergunta "Que aconteceu", o "que" é sujeito do verbo acontecer: "Algo aconteceu".
Quando o pronome interrogativo estiver no início do período pode ser acompanhado do termo "o": "O que você comprou?"; "O que aconteceu?". Quando estiver no meio do período, obrigatoriamente será acompanhado do "o": "Gostaria de saber o que você comprou"; ‘Gostaria de saber o que aconteceu". Quando estiver no fim do período, além de ser obrigatoriamente acompanhado do "o", é acentuado: "Você comprou o quê?"; "Aconteceu o quê?".
O "que" será denominado de partícula expletiva, ou de realce, quando somente acompanhar um termo da oração, realçando ou dando ênfase. Pode ou não ser acompanhado do verbo "ser", sempre na terceira pessoa do singular: "Eu que falei isso"; "O que que faz você feliz?"; "Que que você comprou?"; "Que que aconteceu?"; "Eu é que falei isso"; "O que é que faz você feliz?"; "Que é que você comprou?"; "Que é que aconteceu?".

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