EDUCAR-SE
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Dilson Catarino 
Num editorial de um grande jornal brasileiro, havia a seguinte frase: "Falta o governo definir se quer ou não proibir o comércio de armas". A princípio parece estar adequada aos padrões cultos da Língua Portuguesa, não é mesmo? Porém não está, pois o verbo faltar, quando usado no sentido de ser necessário, exige a preposição a diante do elemento a quem é necessário praticar a ação, que, na frase apresentada, é o governo. A frase, então, deveria estar assim estruturada:
Falta ao governo definir se quer ou não proibir o comércio de armas.
Quando o verbo exigir a preposição "a", o seu complemento pode ser representado por um pronome oblíquo átono me, te, lhe, nos, vos, lhes. Veja exemplos: "Falta a nós respeitar mais os semelhantes" ou "Falta-nos respeitar mais os semelhantes", e não Falta nós respeitarmos mais os semelhantes. "Falta a vocês entrar com o pedido" ou "Falta-lhes entrar com o pedido", e não Falta vocês entrarem com o pedido.
Perceba que o verbo posterior ao elemento a quem é necessário praticar a ação permanece no singular, não flexionado, já que este elemento não exerce a função de sujeito do verbo, e sim a de complemento de faltar.
O mesmo ocorre com os verbos bastar e restar. Veja outra frase do mesmo jornal, no mesmo dia: Bastaria a polícia ter adotado os procedimentos elementares de investigação. Novamente inadequada. A frase deveria estar assim: Bastaria à polícia ter adotado os procedimentos elementares de investigação.
Veja mais exemplos: "Basta a nós cumprir nossos deveres" ou "Basta-nos cumprir nossos deveres", e não Basta nós cumprirmos nosso deveres. "Resta ao alunos aceitar a nota dada" ou "Resta-lhes aceitar a nota dada", e não Resta os alunos aceitarem a nota dada.
Está cheirando feijão queimado. Corra até a cozinha!
O verbo cheirar possui os seguintes significados e regências:
1) Será verbo transitivo direto, ou seja, será usado sem preposição, quando significar tomar o cheiro de; aplicar o sentido do olfato; introduzir no nariz, aspirando (rapé, etc.) ou reconhecer pelo cheiro. Por exemplo: "Cheirou a flor antes de entregá-la à namorada"; "Cheirou o rapé todo de uma vez"; "Mal entrou em casa, cheirou o frango que a esposa preparava".
2) Será verbo transitivo indireto, com a preposição a, quando significar exalar determinado cheiro; ter aparência, viso ou semelhança. Por exemplo: "A camisa dele cheirava a suor"; "Meus cabelos estão cheirando a cigarro"; "Isso cheira a malandragem".
A frase apresentada, então, deve ser assim reescrita: "Está cheirando a feijão queimado. Corre até a cozinha!"
Telefone agora, que ganhará um ingresso!
Constantemente, ouvem-se frases desse tipo nas rádios do Brasil. O problema é que, às vezes, o locutor se empolga e acaba utilizando uma inadequação gramatical, que é a seguinte: "Telefone agora, que ganhará de grátis um ingresso". Qual é o problema dessa frase? A inadequação está no uso do verbo "ganhar" com o adjetivo "grátis", pois, se vai ganhar algo, não pagará por isso, então obviamente já é grátis. E mais: a expressão de grátis não existe. O certo seria usar o adjetivo grátis, o advérbio gratuitamente ou a locução de graça. Então a frase deve ser uma das seguintes: "Ligue, que ganhará um ingresso..." ou "Ligue, que terá um ingresso de graça..." ou "Ligue, que terá grátis um ingresso..." ou ainda Ligue, que conseguirá gratuitamente um ingresso..."
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