Sucesso de público e de crítica, a peça "Os sem vergonhas" já divertiu muita gente em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, dentre outras cidades, com a história de seis desempregados que têm uma brilhante ideia para ganhar dinheiro: fazer strip-tease. É baseada na obra neozelandesa "Ladies Nigth", de Anthony Mc Carten e Stephen Sinclair, que inspirou o filme "Ou tudo ou nada" ("The Full Monty"). O assunto, porém, de nossa coluna não é teatro nem cinema, mas sim a Língua Portuguesa, e o nome dado à peça não segue a norma culta de nosso idioma.
"Eta! professor chato!" - alguns podem dizer; "vai começar a corrigir até nome de peça teatral!" O meu interesse, no entanto, não é a correção pura e simples, e sim o que pode ocorrer nos exames vestibulares, pois sei que muitos leitores desta coluna são vestibulandos e que alguns exames ‘garimpam’ em jornais e revistas peculiaridades gramaticais para apoquentar esses pobres estudantes. Como essa peça tem feito sucesso por onde passa, pode ocorrer a algum examinador perguntar sobre a regra de hífen que consta do nome dela. Vejamo-la, então:
Todo vocábulo da Língua Portuguesa iniciado por "sem-", prefixo que tem a noção de privação, exclusão, inexistência ou ausência, deve ser grafado com hífen, sem exceção: "sem-cerimônia, sem-fim, sem-justiça, sem-lar, sem-luz, sem-nome, sem-número, sem-pão, sem-par, sem-razão, sem-sal, sem-segundo, sem-termo, sem-terra, sem-ventura, sem-vergonha, sem-vergonhez, sem-vergonheza, sem-vergonhice". Quanto à concordância, todas essas palavras são invariáveis: os sem-vergonha, os sem-terra, etc.
Prefixo é o elemento que antecede o radical de uma palavra com o intuito de criar um novo vocábulo com um significado específico. Por exemplo, acrescenta-se o prefixo "re-" ao verbo "ver" – rever - para lhe dar o significado de "ver de novo". Portanto, será prefixo o "sem-" que tiver essa função. Explico isso, porque pode haver a preposição "sem", que tem o mesmo valor do prefixo: falta, privação, exclusão, ausência. Por exemplo, na frase "Ele é um sem-vergonha", há o prefixo "sem-", pois antecede o radical de "vergonha" com o intuito de criar um novo vocábulo com um significado específico, por isso com hífen. Nesta outra frase, porém, - "Ele entrou nu na sala, sem vergonha alguma" – há a preposição "sem", pois não houve a formação de outro vocábulo, por isso sem hífen.

Quase contrato de um não fumante
A Reforma Ortográfica, assinada pelo então Presidente Lula, em setembro de 2008, que passaria a ser oficial em janeiro de 2013, mas, por um decreto da Presidenta Dilma, passará a sê-lo em janeiro de 2016 (até lá as duas ortografias são válidas), retirou o hífen de dois elementos: "não-" e "quase-".
O prefixo "não-", segundo o dicionário Aurélio, tem "o valor em geral de negação, privação, destituição, ausência ou inexistência, muitas vezes em formações com significado próprio em dada área de conhecimento". Na velha ortografia, havia hífen; na nova, não o há: "não agressão, não alinhamento, não arredondado, não beligerância, não combatente, não conformismo, não empresarial, não engajado, não ficção, não formal, não fumante, não governamental, não intervenção, não letrado, não linguístico, não natural". Essas palavras admitem singular e plural: não agressão e não agressões.
O elemento de composição "quase-", que, antes da reforma, formava palavras compostas com hífen, agora forma locuções substantivas ou adjetivas sem hífen: "quase contrato, quase delito, quase posse". Essas palavras admitem singular e plural: "quase contrato" e "quase contratos".
O significado de "quase contrato", segundo o dicionário Aurélio, é "compromisso voluntário, sem forma rigorosa de contrato". É o que muitos não fumantes fazem na tentativa de não retornar ao vício.

www.gramaticaonline.com.br
[email protected]

mockup