Esses dias me perguntaram por que muitos brasileiros não dominam a Língua Portuguesa adequadamente, ao que respondi que, além da falta de acesso à educação formal, o problema poderia estar no próprio estudo da gramática: estuda-se para ‘passar de ano’, não para aprender a falar correta e fluentemente, como ocorre com o estudo de outras línguas. Quem estuda Inglês ou Francês, faz isso para falar a língua fluentemente, não apenas para conseguir a nota suficiente no final do ano.
Evidentemente, isso traz problemas ao falante, principalmente agora com a Reforma Ortográfica, que eliminou o trema dos grupos "que, qui, gue, gui". Como pronunciar as palavras "quiproquó, quinquênio e quinquídio?" pronunciam-se como em "tranquilo" e "cinquenta", ou seja, o "u" fica na mesma sílaba que a vogal posterior a ele. A propósito, o significado de "quiproquó", dentre outros, é "confusão, equívoco", "quinquênio", período de cinco anos, e "quinquídio", período de cinco dias.
A Reforma nos deixou outros problemas de pronúncia: os verbos "negociar e premiar" podem ser pronunciados "eu negocio e premio", como em "eu copio", ou "eu negoceio e premeio", como em "eu passeio". Os verbos terminados em "–guar, -quar e –quir" podem ser pronunciados "eu águo", como em "água", ou "eu aguo", como em "possuo".
Algumas palavras em que há o grupo "ui" trazem bastante dificuldade aos cidadãos que usam a Língua Portuguesa, os chamados lusófonos: gratuito, fortuito, intuito, circuito. Essas duas letras devem ser pronunciadas na mesma sílaba, com o "u" levemente mais forte que o "i", como ocorre com "muito". O vocábulo "fluido" tem duas pronúncias: se for substantivo, pronuncia-se como as citadas; se for o particípio do verbo "fluir", tem acento agudo no "i": "fluído".
Outras palavras apresentam dificuldades quanto ao timbre da vogal tônica. Por exemplo, a palavra "grelha" tem a vogal tônica "e" aberta, como em "férias"; "crosta, bodas e poça" têm a vogal tônica fechada, como em "rosto"; "obeso, ileso e obsoleto" admitem as duas pronúncias: com o "e" fechado ou aberto; "molho" com som aberto, como em "eu olho", significa "conjunto de coisas unidas", como em "molho de chaves"; "molho" com som fechado, como em "o olho", significa "caldo em que se refogam iguarias", como em "molho de tomates".
Além disso, há também a dificuldade em se saber qual a sílaba tônica. Têm a última sílaba tônica, como em "furor", a palavra "condor", e, como "assim", a palavra "ruim". Têm a penúltima sílaba tônica, como em "canjica", a palavra "rubrica", como em "suporte", a palavra "recorde", como em "o troco", a palavra "filantropo". Tanto podem ter a última quanto a penúltima sílaba tônica as palavras "reptil ou réptil", "projetil ou projétil", xerox ou xérox", "zangão ou zângão". Outro fato interessante é que "zangão" se pluraliza "zangãos ou zangões" e "zângão", somente "zângãos". Têm a antepenúltima sílaba tônica as palavras "lêvedo e ínterim".
E, finalmente, as últimas dificuldades quanto à pronúncia: "bandeja e caranguejo" não têm "i", como em "queijo", por isso se pronunciam como em "vejo"; "mendigo e mortadela" não têm "n", como em "eu vingo e arandela", por isso se pronunciam como em "eu digo e cadela"; "privilégio" tem "i" na primeira sílaba, e não "e", e "empecilho" tem "e", e não "i".
São muitas as dificuldade. Quem deseja falar adequadamente, de acordo com as regras, tem de se esforçar e pesquisar bastante em livros de gramática e em dicionários. Para quem se dispuser a isso, desejo bons estudos!

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