Aproveitando o ensejo do Dia dos Pais no próximo domingo, usarei este espaço hoje para uma reflexão acerca da família.
No livro Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago escreveu uma frase que pode ser usada para reflexão acerca da situação das famílias de hoje: "...a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". Muitas das famílias parece terem ficado cegas concernentemente aos problemas que afetam seus filhos. E essa cegueira afeta toda a sociedade, pois o número de pais e mães acometidos por essa privação de visão cresce a olhos vistos dia após dia.
Muitos problemas provocados por crianças e por jovens são reflexo da (des)educação a que eles são submetidos em seus lares. Pai ausente, mãe presente demais, pais que julgam estarem seus filhos sempre certos (a culpa é dos amigos deles, das más companhias) avós omissos, enfim, responsáveis negligentes causam prejuízos espantosos ao desenvolvimento socioemotivo de alguns jovens. Estes perdem a referência e passam a agir conforme o que aprendem na internet, na televisão, nas suas tribos; e esses ensinamentos nem sempre são condizentes com o que consideramos adequado à boa convivência em sociedade.

Bullying
O jovenzinho aprende a ofender física ou moralmente os mais fracos porque tem quem o acoberte, seja o amiguinho que o acompanha enquanto pratica as ofensas, sejam aqueles que assistem à agressão e se omitem (crianças e adultos), seja a própria vítima, que tem medo de o denunciar, sejam os próprios pais, que não tomam consciência de que ajudam a formar um cidadão antissocial. Modernamente, há até nome para esses atos de hostilidade: bullying, palavra inglesa que provém de bully, cujo significado é "valentão". Muitos pais nem percebem que seu filho é um praticante de bullying.
Essa falta de percepção de muitos pais vem do relacionamento afetivo pobre entre os membros da família, que tem perdido o rumo concernentemente à educação. Talvez no empenho de ajudar os filhos a atingir a felicidade, muitos tenham conseguido exatamente o contrário: afastá-los dela. Não é o ‘poder fazer tudo’ que leva as crianças ao bem viver; a frustração ajuda-as a ‘trabalhar’ a emoção de maneira mais profícua.

Resgatar os verdadeiros valores
A família moderna está perdida? É preciso, então, que ela seja mais parecida com a família do passado e que resgate os verdadeiros valores. É preciso que a experiência de vida que os pais adquiriram lhes dê autoridade suficiente para serem os mentores das jovens criaturas sustentadas por eles. Esse sustento não pode ser tão somente físico; há de ser emocional, espiritual, educacional. É preciso que os pais avaliem a situação de seu lar com bom senso para perceber o que necessita ser mudado e como realizar isso.
Família que educa seus filhos segundo os valores afetivos adequados constrói em seu lar ideais de liberdade e de justiça social. Não a liberdade do vale-tudo, mas a liberdade que os ensina a fazer escolhas, a liberdade que lhes demonstra que todos têm o mesmo direito de compartilhar a comunidade da qual fazem parte e de ser o que se é, sem que por isso seja passível de julgamento. Não a justiça social que só nos interessa quando a injustiça nos atinge, mas a justiça social de fato, em que todos devem ser protegidos para que cada um possa usufruir a sua liberdade de modo satisfatório.

Deus, pátria e o próximo
No Escotismo, há um sinal, feito com a mão direita, em que os dedos indicador, médio e anelar ficam em riste, ou seja, em posição erguida, e o polegar é posto sobre o mindinho. O significado simbólico desse ato é o seguinte: os três dedos indicam os pilares da sociedade: Deus, Pátria e o próximo (os que estão mais próximos de nós são nossos familiares); o polegar sobre o mindinho significa que o maior e mais forte deve proteger o menor e o mais fraco.
Essa alegoria deveria ser seguida por todas as escolas, todas as famílias, todas as instituições: não há vida significativa sem o respeito aos três pilares da sociedade; não conseguimos formar uma sociedade justa e livre sem crer que somos mais que meros mortais, sem ter uma nação a nos apegar, a defender e por ela sermos defendidos, e sem uma família afetiva e unida para nos afeiçoar. E, talvez o mais importante, sem ter a certeza de que o mais forte é educado para proteger os mais fracos.

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