Durante as férias, li, nesta Folha, três cartas de leitores comentando assuntos diversos, que não nos interessam agora. O que havia em comum entre elas era o uso do vocábulo "russo" representando o significado de "complicado, cheio de dificuldades". Esses missivistas podem ter sido levados a usar tal vocábulo, talvez, pelo nome da personagem na novela da 20h30 de Adriano Garib, paulista de Bauru que estudou Jornalismo em Londrina na década de 1980, o Russo, personagem que tanto sucesso tem feito na história, o bandido que trafica mulheres.
O que ocorre, porém, é que "russo", com ss, significa, segundo o dicionário Houaiss, "relativo ou pertencente à Federação Russa ou que é seu natural ou representante" ou ainda "a língua falada na Rússia". A palavra que, também segundo o Houaiss, tem como significado "cheio de adversidades, de dificuldades; complicado, perigoso, apertado" é "ruço", com ‘c cedilhado’. Além desses significados, "ruço" também pode ser usado no sentido de "pardo claro, pardacento" (‘pardo’ é a cor escura, entre o branco e o preto) ou "entremeados de fios brancos (diz-se de pelo, cabelo, barba); grisalho (‘grisalho’ deriva de "gris", que significa "a cor tirante a cinza")" ou ainda "esmaecido pelo uso; surrado, velho" ou, finalmente, "pessoa que tem cabelos grisalhos ou louros ou ainda castanhos muito claros; ou cavalo que possui pelagem preta entremeada de branco e com crinas grisalhas".
Veja alguns exemplos: "Os meus cabelos estão ruços"; "A barba do Russo é ruça"; "Nos filmes que retratavam os índios dos Estados Unidos, sempre havia cavalos ruços"; "A situação do russo está ruça".

TV com 10 megas por R$30,00
É muito comum vermos propagandas em todos os veículos de comunicação de empresas vendendo computadores, TV a cabo ou máquinas fotográficas que têm "X mega", ou "giga", usando esses vocábulos sempre no singular, o que é inadequado ao idioma padrão. Vejamos o porquê:
"Mega" é um prefixo grego, adaptado de MEGAL(O)-, ‘grande’, equivalente a um milhão de vezes a unidade indicada, por exemplo, "megagrama = um milhão de gramas", "megabaite (port.) ou megabyte (ingl.) = um milhão de baites (port.) ou bytes (ingl.).
"Giga" também é prefixo grego, adaptado de GIGANT(O)-, ‘gigante’, equivalente a mil milhões de vezes a unidade indicada: "gigagrama = mil milhões de gramas ou mil megagramas"; "gigabaite ou gigabyte = mil milhões de baites ou bytes ou mil megabaites ou megabytes".
Os veículos de comunicação, no entanto, talvez para economizar espaço ou tempo, passaram a usar os vocábulos megabaite ou megabyte, gigabaite ou gigabyte sem o substantivo baite ou byte; apenas "mega" e "giga". Isso feito, ocorreu a formação de um novo substantivo por regressão, como ocorreu, num passado não tão distante, com "cinema", regressão de "cinematografia", "foto", de "fotografia", "quilo", de "quilograma", etc. Os novos substantivos formados passam a ser tratados como tal, ou seja, passam a ter flexão como qualquer outro substantivo, por isso passam a ter plural.
Ninguém estranha o uso de "quilo" nem o de "foto" no plural: dois quilos, vinte quilos, duas fotos, trinta fotos, etc. Não se devem estranhar tampouco os novos substantivos "mega" e "giga" também no plural. O adequado ao padrão culto da Língua, portanto, não é o que vemos e ouvimos nas revistas, nos jornais e nas emissoras de rádio e de televisão, mas sim como se apresentam agora: "Dez megas"; "cinco gigas".
A frase apresentada, portanto, é a adequada ao padrão culto: "TV com 10 megas por R$30,00!"

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