O último capítulo da novela "Avenida Brasil", segundo alguns canais de notícias, foi o último capítulo de novela com o maior número de televisores ligados no canal em que ele passou. Dizem, inclusive, que a Presidenta Dilma adiou alguns compromissos para poder assistir a ele. Sabe-se lá se é fato ou boato. O que se sabe é que nunca se falou tanto sobre tantas personagens fictícias quanto de Tufão, Carminha, Nina, Max, etc. A frase apresentada no título deste texto, portanto, deve ter sido muito dita nos dias subsequentes ao capítulo final. E qual a ligação que isso tem com esta coluna, que trata de Gramática da Língua Portuguesa? Vejamo-la:
Existem verbos que admitem dois complementos simultâneos. São os chamados verbos transitivos diretos e indiretos ou bitransitivos, como "doar" (Quem doa, doa algo a alguém), "informar" (Quem informa, informa algo a alguém ou alguém de algo), "pagar" (Quem paga, paga algo a alguém), "agradecer" (Quem agradece, agradece algo a alguém), "perdoar" (Quem perdoa, perdoa algo a alguém). Os três últimos têm uma peculiaridade em comum: a ‘coisa’, aquilo que é agradecido, pago ou perdoado, sempre deve ser usada sem preposição alguma, e a pessoa, a quem agradece, paga ou perdoa, sempre com a preposição "a".
"Pagar, perdoar e agradecer" sempre terão a "coisa" como complemento sem preposição, mesmo que seja complemento único, e a pessoa – física ou jurídica – como complemento com a preposição "a", também mesmo que seja complemento único. Não se admitem, portanto, construções como as seguintes: "Gostaria de agradecer vocês por tudo que fizeram", que deve ser corrigida para "Gostaria de agradecer a vocês tudo que fizeram"; "Não pagarei você hoje", que deve ser corrigida para "Não pagarei a você hoje"; "Jamais perdoarei essa garota", que deve ser corrigida para "Jamais perdoarei a essa garota"; "Nina perdoou Carminha", que deve ser corrigida para "Nina perdoou a Carminha", em que esse "a" é somente preposição, não artigo feminino. Caso queira colocar o artigo também, ocorrerá crase: "Nina perdoou à Carminha".
Sabe-se que o complemento de um verbo sem preposição pode ser representado pelos pronomes "o, a, os, as". Sabe-se também que o complemento de um verbo com a preposição "a" pode ser representado pelos pronomes "lhe, lhes". A "coisa" que complementar esses verbos, então, será substituída por "o, a, os, as", e a pessoa, por "lhe, lhes": "Eu sei que a dívida é minha, mas não a pagarei agora"; "Devo muito a você, mas não lhe pagarei agora"; "O convite, agradeço-o comovido"; "Ao meu pai, agradeço-lhe comovido"; "Se ela o trair, não lhe perdoe!"; "Sua dívida é grande e não a perdoarei"; "Carminha traiu Tufão, e ele não lhe perdoou".
Quando houver dois pronomes – um com preposição; outro representativo de um termo preposicionado, ambos podem contrair-se. Por exemplo: "Não pagarei a dívida ao meu antigo sócio", em que o termo "dívida" não está acompanhado de preposição alguma, e "meu antigo sócio", sim. "Substitui-se "dívida" por "a" (Não a pagarei ao meu antigo sócio); substitui-se "ao meu antigo sócio" por "lhe" (Não lhe pagarei a dívida). Ambos podem ser substituídos simultaneamente: "Não lha pagarei". Tão pouquissimamente utilizado, que o Word acabou de sublinhar "lha" em vermelho, sinal de que ele não identifica isso como adequado. Pede que corrija para "lhe", "lá", "ilha", "lã" ou "olha". "Lha", porém, é adequado ao padrão culto da Língua; só que ninguém usa isso!

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