EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Dilson Catarino 
ALUGAM-SE CASAS
''Alugam-se casas''. Certamente a maioria dos que passaram pelo Ensino Fundamental já ouviu essa frase em sala de aula. É a que muitos professores usam para exemplificar o uso do pronome ''se'' denominado de partícula apassivadora, ou pronome apassivador, que indica que o elemento paciente - o que sofre a ação verbal - é o sujeito do verbo, ou seja, ''alugam-se casas'' é o mesmo que ''casas são alugadas'', por isso o verbo deve ficar no plural. É a regra básica de concordância verbal: o verbo concorda com o sujeito.
Posto isso, vejamos o que ocorre gramaticalmente:
O pronome ''se'' será denominado de partícula apassivadora quando se unir a um verbo transitivo direto acompanhado de seu complemento. Verbo transitivo direto é aquele que pede um complemento sem preposição - o objeto direto; como modelo, usa-se o verbo ''comprar'': ''Quem compra, compra algo''. Todo verbo indicador de ação ou de fato que se encaixar nesse modelo - ''Quem compra, compra algo'' - é verbo transitivo direto, e o ''algo'' será o objeto direto. Quando um verbo transitivo direto, com seu objeto direto, for acompanhado do pronome ''se'', este será chamado de partícula apassivadora. O objeto direto, nesses casos, será transformado em sujeito do verbo, por isso este tem de concordar com aquele. Esse é o motivo de o verbo ''alugar'' ficar no plural na frase ''alugam-se casas'': ''alugar'' é verbo transitivo direto, e ''casas'', o objeto direto que se transformou em sujeito; o verbo concorda com o sujeito, por isso fica no plural. Veja este outro exemplo:
- Já não se encontram políticos como antigamente.
O verbo ''encontrar'' é transitivo direto, pois ''Quem encontra, encontra algo ou alguém''; o ''alguém'' é o substantivo ''políticos'' que está no plural. O pronome ''se'' é partícula apassivadora, então ''políticos'' se transforma em sujeito; o verbo, portanto, fica no plural.
Se, porém, houver preposição (de, a, em, por, para...) ligada ao verbo - seja exigida por ele ou por seu complemento -, o pronome ''se'' não será partícula apassivadora, mas sim pronome de indeterminação do sujeito, que fará o verbo ficar no singular. Isso ocorre porque o sujeito, na Língua Portuguesa, não pode ser iniciado por preposição alguma, portanto o complemento preposicionado não pode ser sujeito e o ''se'' não pode ser partícula apassivadora. Veja estes exemplos:
- Precisa-se de pessoas honestas.
O verbo ''precisar'' pede a preposição ''de'', pois ''Quem precisa, precisa de algo ou de alguém''. Como há a preposição, ''pessoas honestas'' não pode ser sujeito. O ''se'' indetermina o sujeito, e o verbo fica no singular. Ocorre, no entanto, que o verbo ''precisar'' também pode ser usado sem preposição alguma. Se não a usar, ''pessoas honestas'' passa a ser sujeito, o ''se'' passa a ser partícula apassivadora e o verbo passa a concordar com o sujeito ''Precisam-se pessoas honestas''.
- Ama-se a todos os irmãos.
O verbo ''amar'' não pede preposição alguma, pois ''Quem ama, ama algo ou alguém''. É, então, verbo transitivo direto, mas o seu complemento pede a preposição ''a'' optativamente: sempre que um pronome indefinido funcionar como objeto direto, a preposição ''a'' será optativa, transformando o pronome em objeto direto preposicionado. Como há a preposição, ''todos os irmãos'' não pode ser sujeito. O ''se'' indetermina o sujeito e o verbo fica no singular. Como a preposição ''a'' diante de pronomes indefinidos é optativa, pode ser retirada. Se não a usar, ''todos os irmãos'' passa a ser sujeito, o ''se'' passa a ser partícula apassivadora e o verbo passa a concordar com o sujeito ''Amam-se todos os irmãos''.
Outros dois casos de pronome de indeterminação do sujeito ocorrem quando o verbo indicar qualidade do sujeito - ser, estar, parecer, ficar, etc. e quando o verbo não exigir complemento algum. Por exemplo:
- Chora-se muito, quando se é adolescente, principalmente as meninas.
O verbo ''ser'' indica qualidade do sujeito: ''alguém é adolescente''; e o verbo ''chorar'' não exige complemento algum, pois ''Quem chora, chora''.


