EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012
DÍLSON CATARINO 
''Chamar a atenção de alguém'' ou ''Chamar alguém à atenção''?
O governador de certo estado brasileiro, insatisfeito com as palavras impensadas de seu assessor pessoal, repreendeu-o em público, causando mal-estar a todos os que presenciaram a grotesca cena. Era mais ou menos isso que comentava o jornalista que assistiu ao esbregue do governador no pobre coitado do cidadão. O seu texto está todo certo, não há erro gramatical algum. O problema está no ''título'' do artigo, que era o seguinte: ''Governador chama a atenção de assessor pela gafe cometida''. O governador, porém, não ''chamou a atenção do assessor'', já que chamar a atenção de alguém significa ''atrair para si, angariar, despertar a atenção de alguém''. Nós, brasileiros, temos o costume de utilizar tal frase no sentido de repreender, não é mesmo? Mas, nesse sentido, a expressão certa é ''chamar alguém à atenção'', e não ''chamar a atenção de alguém''. Se o governador chamou a atenção do assessor, quer dizer que aquele, o governador, atraiu a atenção deste, o assessor, devido a alguma ação praticada por ele. A frase certa seria então a seguinte: ''Governador chama assessor à atenção pela gafe cometida''.
Verbo ressarcir; como usá-lo:
Li num artigo sobre determinado governo estadual brasileiro a seguinte frase: ''O governo nunca ressarce os prejuízos decorrentes de seus erros''. A intenção do articulista foi dizer que não há indenização, compensação, reparo. O problema é que o verbo ''ressarcir'' é defectivo, ou seja, não é conjugado em todos os tempos e pessoas. Faltam-lhe, no presente do indicativo, as pessoas eu, tu, ele e eles; falta-lhe todo o presente do subjuntivo e todo o imperativo negativo; faltam-lhe, finalmente, no imperativo afirmativo, as pessoas tu, você, nós e vocês. Nos outros tempos, ele é conjugado como qualquer verbo regular terminado em ''ir''.
Antes de continuarmos, temos de identificar os tempos e os modos citados anteriormente: o presente do indicativo é o tempo que indica a ação cotidiana, caracterizado pela expressão ''Todos os dias...'' ; o presente do subjuntivo é o tempo que indica desejo, intenção, caracterizado pela expressão ''Espero que...'' ; o imperativo é o modo que indica ordem, pedido, conselho ou apelo, como em Venha até aqui, menino.
O verbo ''ressarcir'' deve, então, ser conjugado da seguinte maneira:
- Presente do Indicativo: Não há as pessoas ''eu, tu, ele, eles''; nós ressarcimos, vós ressarcis (A sílaba tônica é ''cis'');.
- Presente do Subjuntivo: Não há pessoa alguma.
- Imperativo afirmativo: Não há as pessoas ''tu, você, nós, vocês''; ressarci vós (A sílaba tônica é ''ci'').
- Imperativo Negativo: Não há pessoa alguma.
- Pretérito Perfeito do indicativo: eu ressarci, tu ressarciste, ele ressarciu, nós ressarcimos, vós ressarcistes, eles ressarciram (A sílaba tônica é ''ci'' em todas as pessoas).
Todos os outros tempos são regulares, como aconteceu com o pretérito perfeito do indicativo. Basta conjugar qualquer verbo terminado em ir e seguir sua conjugação.
A frase apresentada deveria, então, ser estruturada por algum verbo sinônimo de ressarcir, como indenizar, reparar, compensar: ''O governo nunca compensa os prejuízos decorrentes de seus erros''.
Espere um pouco. Vou lavar as mãos e já volto
Quando digo ''Vou lavar as mãos'', claro está que se trata de minhas mãos, e não das mãos de outrem. Da mesma maneira, quando digo ''Vá lavar as mãos'', claro está que se trata das mãos da pessoa com quem estou falando, e não das de outra qualquer.
O uso dos pronomes possessivos - meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s), vossa(s) - tem algumas regras especiais. Dentre elas, destacamos a que se refere às partes do corpo: se a parte do corpo referida pertencer a outra pessoa, o pronome possessivo deverá ser empregado; caso se trate de parte do corpo da própria pessoa, não se deve usar o pronome possessivo. Por exemplo, ao pedir que a cabeleireira me lave os cabelos, não estou solicitando que ela lave os seus próprios cabelos, mas sim os meus, ou seja, de outra pessoa que não ela; então devo dizer assim: ''Beatriz, por favor, lave os meus cabelos com aquele xampu''; ou, quando digo a alguém que exagera no consumo de cigarros e não pratica exercícios físicos que deve cuidar melhor da saúde, claro está que me refiro à saúde dela mesma, e não de outra pessoa qualquer. Devo, portanto, dizer assim: ''Coimbra, você deveria cuidar mais da saúde!''.
Essa regra vale também para nomes de ''peças de vestuário'' ou de ''faculdades do espírito'' e para a palavra ''casa'', na acepção de ''moradia, lar, residência'': Sujei as calças com tinta. Perdi o juízo por causa dela. Vou escovar os dentes. Venha, que eu mesmo escovarei seus dentes. Quebrei a perna quando me acidentei. Acabei de chegar de casa.


