EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de outubro de 2011
Dilson Catarino 
Alguns dizem que os professores de Português somos chatos, pois o que interessa é a comunicação ser efetivada. A frase apresentada, por exemplo, é compreendida por qualquer cidadão que saiba ler: Ela chegou depois da 7h. E pronto!
Sim, sim, caro aluno estressado. O meu intento, porém, é levá-lo a escrever de maneira categórica, de maneira que não fiquem dúvidas nos seus textos. E para isso ocorrer, a análise sintática é extremamente importante.
Sintaticamente falando, a frase acima contém uma inadequação gramatical. Vejamo-la:
Existem poucos verbos denominados de impessoais; são os verbos que não têm sujeito, por isso não têm com quem concordar, ficando na terceira pessoa do singular sempre. São eles:
1- Verbos indicadores de fenômeno da natureza, direta ou indiretamente.
Choveu ontem.
Faz muito frio por aqui.
Já é primavera!
2- Verbo fazer indicando fenômeno da natureza ou tempo decorrido:
Faz muito frio por aqui.
Faz dois anos que não o vejo.
3- Verbo haver significando existir ou acontecer ou ainda indicando tempo decorrido:
Há muitos homens honestos.
Houve várias festas em Londrina.
Há dois anos que não o vejo.
4- Verbos chegar e bastar no imperativo:
Chega de conversa.
Basta de bagunça.
5- Verbo ser indicando horas, datas e distância. Esse é o único verbo impessoal que não fica no singular obrigatoriamente:
São 2h.
São 4km até lá
Hoje é cinco de outubro.
6- Verbo passar, acompanhado da preposição de, indicando horas:
Já passa das 7h.
Muito bem. Visto isso, precisamos observar que, na frase apresentada no início do texto, há o pronome 'se', que, quando acompanhar verbo com preposição, será denominado de índice de indeterminação do sujeito, o que indica que o sujeito é indeterminado. Mas, como pode ser indeterminado o sujeito, se o verbo é impessoal?
Conclui-se que, junto do verbo passar, acompanhado da preposição 'de', o pronome 'se' não pode ser utilizado. A frase, portanto, está inadequada. O certo é retirar o pronome 'se':
Já passava das 7h quando ela chegou.
Outra situação em que o pronome 'se' não deve ser utilizado será em frases em que haja adjetivo acompanhado da preposição 'de'. Por exemplo, na seguinte frase:
Esta é uma teoria difícil de entender.
Como o adjetivo difícil está acompanhado da preposição 'de', o pronome 'se' não deve ser usado. É inadequado gramaticalmente dizer 'difícil de se entender'.
Nesses casos (adjetivo + de) também não se deve usar o verbo 'ser' imediatamente depois da preposição 'de', ou seja, também não se deve dizer 'difícil de ser entendida'. Veja outros exemplos:
Estamos numa situação difícil de enfrentar. (e não ''difícil de se enfrentar'' nem ''difícil de ser enfrentada'')
O comportamento do jovem é fácil de aceitar. (e não ''fácil de se aceitar'' nem ''fácil de ser aceito'')
Essa é uma tarefa complicada de resolver. (e não ''complicada de se resolver'' nem ''complicada de ser resolvida'')


