TU TE TORNAS ETERNAMENTE RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE CATIVAS
  No livro ‘‘O Pequeno Príncipe’’, de Antoine de Saint-Exupery, um livro infantil escrito para adultos, o Pequeno Príncipe julgava possuir uma flor sem igual e descobriu que não passava de uma rosa comum. Ela lhe havia dito ser a única da espécie em todo o universo, mas ele encontrou cinco mil delas, iguaizinhas, num só jardim. Ficou triste por isso e chorou. Foi então que encontrou a raposa, com quem quis brincar, mas ela se recusou a isso, pois ele ainda não a tinha cativado; ainda não tinham criado laços. Para a raposa, o Príncipe não era senão um garoto igual a cem mil outros garotos, e para ele a raposa era igual a cem mil outras raposas.
  Um não necessitava do outro. Se, porém, um cativasse ao outro, teriam necessidade um do outro e passariam a ser únicos um ao outro. Segundo ela, a gente só conhece bem as coisas que cativa. E, quando isso ocorre, faz-se um amigo, que passa a ser visto não com os olhos, mas com o coração. Foi aí que o Pequeno Príncipe percebeu o quão importante era sua rosa, pois ele a tinha cativado e agora a enxergava com o coração e se sentia responsável por ela, já que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos.

O CATIVADO TAMBÉM É RESPONSÁVEL
  Pretendo ir além, pois julgo que o mesmo ocorra com o contrário, ou seja, o cativado, aquele que passou a ser visto com o coração do cativador, também passa a ser responsável por este, pois este entregou seu coração àquele, que, por sua vez, se apodera desse coração sem maldade nem má vontade. Claro que, se houver maldade ou má vontade, nenhum valor mais haverá na ação. Temos de crer que o cativado esteja puro de más intenções.
  O cativado tem de querer ser cativado ou tem de aceitar a cativação, do contrário as ações do cativador ocorrerão em vão. Querendo-a ou aceitando-a, sua participação não ocorrerá só passivamente; sua responsabilidade também se intensifica na relação. Não é apenas o cativador responsável; ambos o são. Há uma cumplicidade em suas ações.
  Muitas vezes, o cativado é que toma a iniciativa chamando a atenção do cativador e levando este a se interessar por aquele. É nessa hora em que há a inversão do processo: o cativado ‘rouba’ o coração do cativador, agindo de tal maneira que os olhos deste já não o enxergam mais; o coração é que o vê, pois o essencial, segundo a raposa, só o coração consegue captar. Os olhos só veem o que é concreto, e todos enxergam concretamente o mesmo. O essencial não; cada um vê a essência de um ser segundo sua sensibilidade e suas emoções.


O CATIVADOR PODE SER CATIVADO
  Roubar um coração traz muito mais responsabilidade do que cativar a ele, pois é uma ação intencional, enquanto que o cativar é muitas vezes involuntário. Essas ações são muito semelhantes e se confundem. Até parecem ter o mesmo sentido, mas não o têm. Há inúmeras situações em que o cativador se esquece de que também pode ser cativado e pratica uma ação unilateral. Em outras, o indivíduo rouba o coração de alguém, mas o ignora, pois só se interessa pela posse dele. Esses não se lembram de que se tornam responsáveis pelas consequências de tais atos. O desdobrar de uma conquista é muito mais importante que a própria conquista, por isso a responsabilidade é tão importante.
  O ideal seria que todos agíssemos sempre pensando nestas premissas: a qualquer momento podemos cativar ou ser cativados; podemos roubar um coração ou ter o nosso roubado. E não se trata somente de amor entre homem e mulher. Trata-se de amor, de amizade, de relacionamentos casuais, de relacionamentos entre amigos, entre colegas, entre professores e alunos e até entre seres humanos e animais de estimação. Quem nunca teve seu coração roubado por um gatinho ou por um cachorrinho? Enfim, trata-se de convivência, o objetivo maior de estarmos vivos.


É PRECISO SABER VIVER
  É preciso aprender a conviver melhor com os demais; é preciso aprofundar as ligações com as pessoas com as quais convivemos; é preciso aprender a se responsabilizar pelos sentimentos das pessoas mais próximas a nós; é preciso aprender a ser mais compassivo, a respeitar mais os sentimentos alheios e a se colocar no lugar das outras pessoas. É preciso, enfim, ter em mente a frase escrita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos e, anos depois, interpretada pelos Titãs: É preciso saber viver!

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