EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de setembro de 2011
Dilson Catarino 
NÃO VERÁS PAÍS NENHUM
A Floresta Amazônica não existe mais; em seu lugar há um deserto. O Ministro dos Negócios Imobiliários anuncia na televisão o que ele denomina de ''nona maravilha do mundo''. O Esquema, que comanda o país, se orgulha de dar ao Brasil um deserto maravilhoso, centena de vezes maior e mais belo que o Saara, com planícies amarelas, dunas e leitos secos do que já foram rios caudalosos. É o Governo transformando uma situação caótica em falácia.
Não há mais árvore alguma no país todo, que está dividido em dois por uma fenda enorme; não há mais rios. Água limpa é uma raridade; cada cidadão tem direito a um copo d'água por dia, ou de urina reciclada, se tiver uma ficha autorizando-o a isso. Há também as fichas de circulação, que indicam por onde o indivíduo pode passar e quais lojas pode frequentar. Caso ele não tenha as fichas, é-lhe proibido circular pela cidade, e nem a um copo d'água tem direito, a não ser que suborne alguém. ''Segunda é o dia obrigatório de compras. O povo deve consumir para que as fábricas possam fabricar e não haja a insidiosa recessão''. Quem não comprar, sofrerá as sanções do Esquema.
O sol corrói e apodrece a carne
O Norte e o Nordeste brasileiros transformaram-se em regiões inóspitas; ser vivo algum resiste ao calor que lá impera. O sol é tão forte que queima, literalmente, a pele e corrói a carne de quem se arrisca a enfrentá-lo. Mesmo no Sul e no Sudeste já há os bolsões de calor, que surgem do nada, ressequindo tudo o que atinge.
São Paulo parou. Aquilo que se esperava com extremo temor aconteceu: o maior congestionamento de todos os tempos impediu que o trânsito fluísse; ninguém conseguiu tirar seu automóvel de lá, e lá eles ficaram e ficarão eternamente: quinhentos quilômetros de carros parados, que se transformaram, com o tempo, em carcaças vazias. É o Notável Congestionamento. Alguns chegaram a ficar duas semanas nos veículos, na esperança de poder retirá-lo de lá. As famílias levavam-lhes roupas, água e comida. Quando descobriram que não haveria condições de saírem de lá com seus carros, veio o desespero, a histeria, como se perdessem um ente querido, não apenas um automóvel.
Alimentos factícios
Não há mais animais; não há mais plantas; não há mais alimentação natural; tudo é produzido artificialmente: farinha, sucos, ovos, leite, massas, tudo factício, ou seja, artificial. Tudo com a mesma periculosidade: é grande a probabilidade de intoxicação e de cancerização. A expectativa de vida do brasileiro é de trinta e cinco, quarenta anos. Proibiu-se, porém, a imprensa de tocar no assunto. O único tema, aliás, da imprensa são os benefícios proporcionados pelo Esquema: ''tempestades de areia dignas de países desenvolvidos. Não temos mais de invejar os furacões norte-americanos''.
''As tempestades dizimaram o Maranhão e o Piauí. O deserto avançou para o mar. Sergipe sofreu duas tempestades de lama, Aracaju foi soterrada. O mar, lá, tem ondas de trinta, quarenta metros''.
Não verás país nenhum
Essa é a realidade imaginada por Ignácio de Loyola Brandão em seu fascinante livro Não verás país nenhum, editado pela primeira vez em 1981. Naquela época, pouco se falava de aquecimento global e ainda se acreditava que os mananciais eram inesgotáveis. Hoje, já se sabe que corremos um risco enorme de termos o Planeta deteriorado.
É preciso passar a ter condutas ecologicamente corretas para tentar diminuir o impacto ambiental. Cada um de nós pode ajudar com atitudes simples, como não jogar lixo nas ruas, não desperdiçar água, não pegar o saquinho plástico para carregar as compras em farmácias e lojas de conveniência. Eu já deixei de pegar uns milhares de saquinhos desde que passei a não aceitá-los. Se cada um de nós fizer isso, quanto deixaremos de poluir? Ou será preciso enfrentar a realidade imaginada por Ignácio de Loyola para passar a agir?


