LAN­ÇA­DA CAM­PA­NHA NA­CIO­NAL CON­TRA COR­RUP­ÇÃO NO PA­RA­NÁ

É o Brasil inteiro preocupado com os corruptos do Paraná?
Esse era o título da reportagem que anunciava o lançamento, em Curitiba, da etapa estadual da campanha ''O que você tem a ver com a corrupção?'', iniciativa da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público para incutir na população valores que favoreçam a cultura da legalidade. Quero ser membro ativo dessa campanha e acho que todos nós temos de lutar pela cultura da legalidade começando por nossos próprios atos: agir legalmente em todos os aspectos e exigir que os demais também o façam. Mas o assunto desta coluna, hoje, é Gramática da Língua Portuguesa; mudemos o rumo de nossa prosa, então:
Você já deve ter ouvido a frase ''A ordem dos fatores não altera o produto''. Isso pode ser verdadeiro em alguma área da Matemática - ignoro os axiomas matemáticos -, mas na construção de frases não o é, pois a ordem dos termos de uma oração muitas vezes é essencial para o bom entendimento da frase. É o que ocorreu com o título da reportagem:
q Lançada campanha nacional contra a corrupção no Paraná.
Qual o significado dessa frase? Da maneira como foi construída, pode-se entender que foi lançada uma campanha em todo o país contra a corrupção paranaense. É o Brasil inteiro preocupado com os corruptos do Paraná. Obviamente não foi essa a intenção de quem escreveu a frase. A interpretação lógica é a de que foi lançada, no Paraná, a campanha nacional contra a corrupção. Ela já havia sido lançada em outros Estados; agora, no Paraná. Observe que a ordem dos termos foi fundamental para provocar a anfibologia, outro nome para a popular ambiguidade, agora sem trema. A expressão 'no Paraná', não deve ser ligada ao substantivo 'corrupção', mas sim ao adjetivo 'lançada', pois é o lugar em que a campanha foi lançada. O ideal, portanto, seria construir a frase assim:
q Lançada, no Paraná, campanha nacional contra a corrupção.

ENCONTRO DE ORAÇÕES PARA CASAIS
Outra frase que me chamou a atenção estava numa faixa defronte a uma igreja. Estava escrito nela o seguinte:
q Encontro de orações para casais.
Que significa isso? Que os organizadores querem que ocorra no encontro? Pode-se entender que haverá um encontro em que os participantes orarão pelos casais. Não foi essa, porém, a intenção. O pretendido é que casais participem do encontro para orar. A preposição 'para' foi fundamental para provocar a ambiguidade, pois ela pode ligar-se tanto a 'encontro' (encontro para casais) - em que casais orarão juntos - quanto a 'orações' (orações para casais) - em que haverá orações realizadas por quaisquer pessoas abençoando casais.
O melhor seria construir a frase com a preposição 'para' diretamente ligada ao substantivo 'encontro' (encontro para casais), pois ela indica finalidade, e a finalidade do encontro é levar casais à oração. Assim seria formada a seguinte frase: ''Encontro para casais de orações'', o que causaria outro problema de entendimento, pois 'casais de orações' traria um significado no mínimo estranho. O ideal, então, seria mudar a finalidade do encontro: passaria a ser 'orações', ou seja, a finalidade do encontro é a realização de orações: ''encontro para orações destinado a casais''. É, portanto, um encontro próprio de casais. A preposição 'de' é a que denota o significado de 'próprio de'. Ela também tem de se ligar ao substantivo 'encontro': encontro de casais. A frase ideal, portanto, e a seguinte:á
Encontro de casais para orações.
A ordem dos termos mudou-se por completo, e a intenção dos organizadores ficou clara. O problema é que, para construir frases adequadas, há de haver bom conhecimento de Gramática, e grande parte dos cidadãos brasileiros se preocupa com os estudos gramaticais somente enquanto está no Ensino Médio. O nosso intuito nesta coluna é despertar o interesse pelo idioma padrão, pela escrita adequada, sem, no entanto, simplesmente corrigir erros. Não quero ser fiscal da Gramática; quero, sim, aproveitar construções inadequadas para incentivar o leitor ao estudo, para mostrar, principalmente aos jovens, que ninguém tem o dever de estudar, mais sim, todos têm o direito de aprender, como diz meu amigo e grande professor Júlio Tanga.
Escrevi num trecho desta coluna a seguinte frase: ''O pretendido é que casais participem do encontro para orar. Alguns podem julgar estranha a concordância no singular de 'orar', mas é essa a concordância adequada. O infinitivo sempre ficará no singular - ou não flexionado - quando seu sujeito for o mesmo do verbo anterior: Quem participará do encontro? Resposta: casais. Quem orará? Resposta: casais.

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