EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de junho de 2011
Dilson Catarino 
NÓS PEGA O PEIXE.
A polêmica da vez é o livro ''Por uma vida melhor'', de Heloísa Ramos, suspeito de apresentar erros gramaticais. Os precipitados condenaram-no sem ao menos ler o capítulo que traz a questão que suscitou a divergência. Alguns já dizem que agora o erro é permitido, já que o Ministério da Educação distribui tal livro às escolas públicas pelo Programa do Livro Didático.
Antes de emitir a minha opinião, fui à busca do livro, cujo Capítulo 1 se denomina ''Escrever é diferente de falar''. A autora já deu a dica aos alunos que estudarem por ele: ao escrever um texto, o método utilizado é diferente do usado para falar. A autora escreve as seguintes frases: ''A língua escrita não é o simples registro da fala''; ''... a escrita possui muitas convenções. Ela precisa ser mais contínua, sem os cortes repentinos da fala e mais exata...''; ''...a língua escrita (..) exige um aprendizado formal''; ''... mesmo que uma ou outra atividade de escrita lhe ofereça dificuldade, você deve empenhar-se ao máximo para realizá-la. Procure reler e revisar o que foi escrito, e, quando necessário, passe o texto a limpo. No começo, você pode achar difícil, mas os resultados compensarão'', escreve a autora.
Observe que ela defende o aprendizado sistematizado da língua para a prática da escrita. Quem quer escrever adequadamente, tem de aprender as convenções da língua, que é exata; tem de se empenhar ao máximo para conseguir os resultados esperados. Esse não é um discurso de quem intenciona ensinar o erro. Ocorre, porém, que ela trata da escrita, não da fala. Com a fala, a 'conversa' é outra.
VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
O Capítulo 1 trata do que chamamos de variação linguística (Todos os livros e apostilas sérios tratam desse assunto também; eu mesmo já escrevi sobre isso, aqui, na Folha de Londrina). A autora explica que existem ''variações regionais, próprias de cada região do país'' e sociais: ''as classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização''. Esta é a variedade culta; aquela, a popular. Explica ainda que ''as duas variantes são eficientes como meios de comunicação'', mas que há ''um preconceito social em relação à variante popular''. ''Esse preconceito não é de razão linguística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunicação cotidiana'', conclui.
Como vimos, a autora prega o conhecimento de todas as variantes - inclusa aí a variante culta - para se comunicar adequadamente. Aqueles que a condenaram precocemente, fizeram-no sem conhecimento algum de seu trabalho. Os humoristas de plantão, que ironizaram as frases apresentadas no livro, deveriam ler o capítulo todo, não somente as frases soltas, fora do contexto apresentado por ela.
REGRAS DA MODALIDADE ESCRITA
Assim que termina a teoria do Capítulo 1, o livro parte para a prática: é apresentado um texto produzido por um aluno, no qual há algumas falhas. Ela afirma o seguinte sobre o texto apresentado: ''... é preciso que se apliquem algumas regras da modalidade escrita, como as que serão vistas''. E ensina ao estudante o uso adequado do ponto-final e dos pronomes ele(s), ela(s), o(s), a(s) e suas variantes e lhe(s). Diz ainda que é comum, na linguagem informal, o emprego de ele e ela no lugar de o e de a, mas afirma que na norma culta o adequado é ''Minha irmã viu-o'' no lugar de ''Minha irmã viu ele''. Ela não defende o erro, mas sim o corrige!
A maior crítica dos 'entendidos no assunto' se situa no que vem a seguir: A autora ensina que as palavras acompanhantes devem ser escritas no mesmo gênero e número que as palavras centrais e que o verbo concorda em número e pessoa com o ser envolvido na ação que ele indica. Diz, porém, que essa relação ocorre na variante culta e que, na variante popular, a concordância acontece de maneira diferente, apresentando os seguintes exemplos: ''Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado''; ''Nós pega o peixe''; ''Os menino pega o peixe''.
PRECONCEITO LINGUÍSTICO
Essas frases exemplificam a variante popular, não a norma culta. Isso ela deixa bem claro. O livro diz ainda que o ''falante tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião''. E, para terminar a discussão, são apresentados exercícios aos alunos, nos quais eles devem usar os pronomes convenientes a cada situação e nos quais devem ''corrigir'' erros gramaticas e reescrever palavras de acordo com as regras gramaticais.
Heloísa Ramos não diz que o erro está certo, mas que existem vários modos de falar e que há preconceito linguístico no Brasil. Alguém duvida disso? Quem nunca se pegou 'corrigindo' alguém que diz ''Ela está meia cansada'', ''Não deu pra mim ir'', ''Tem menas gente lá?'' O livro mostra alguns exemplos de como grande parte dos brasileiros usa a língua e propõe que o falante, quando necessário, use a norma culta. O resto é 'achologia' de quem não conhece a obra.


