EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de maio de 2011
Dilson Catarino 
FIDÉLIS, ISABELA E A INOCÊNCIA PERDIDA
Fidélis é um nome próprio que provém do Latim fidelis, cujo significado é ''em que se pode ter confiança''. É o que esperamos dos representantes políticos. Nós os elegemos na esperança de que administrem os bens públicos com lealdade, como registra o dicionário Houaiss: ''com respeito aos princípios e às regras que norteiam a honra e a probidade, com fidelidade aos compromissos assumidos.''
Infelizmente não é o que se nos apresenta. O que vemos é a completa perda de senso moral, de honestidade, de honra de parte dos que se dedicam a fazer política profissionalmente. Profissionalmente, sim, pois a maioria dificilmente deixa um cargo público por vontade própria. A maioria tenta a reeleição: alguns conseguem; outros são repelidos pelos votos. Os que conseguem tentam novamente, e mais uma vez, e de novo. Tornam-se políticos profissionais.
Os nossos representantes - desde o mais humilde vereador até o mais poderoso dos senadores - sofrem tentações as mais diversas para se locupletarem, ou seja, para se tornarem mais abastados. Há, obviamente, os incorruptíveis; mas há os que não resistem e se entregam às falcatruas, recebendo propinas ou se aproveitando da sua posição privilegiada para obter benefícios a terceiros em troca de favores a si próprio.
Muitos aumentam seu patrimônio fabulosamente, e não há órgão fiscalizador algum que os embarace. Já conosco, pobres cidadãos comuns, ai de nós se houver uma diferença de cinquenta dinheiros em nossa declaração de renda!
Esses criminosos transformaram nossa sociedade no cárcere a que somos submetidos em virtude da violência que impera em nosso país. Esses que - como o Sr. Fidélis Canguçu, ex-procurador jurídico da cidade de Londrina, preso com mais quatorze pessoas, todos acusados de desviarem dinheiro da Secretaria de Saúde do município - alimentam a cadeia predatória da comunidade, ou seja, eles são os responsáveis pelo crescimento da violência no país.
O procurador de uma cidade ou de um país é o seu advogado; é aquele em quem devemos confiar, pois está lá para defender nossos direitos, para garantir que tenhamos paz e justiça. O procurador de Londrina foi, porém, um dos responsáveis pelo desvio de dinheiro de uma área já debilitada, quase agonizante: a Saúde. Ele e seus comparsas levam ao caos o funcionamento dos hospitais e dos postos de saúde. A população fica à míngua, sem ter a quem recorrer. Isso provoca uma indignação geral, que, por sua vez, deflagra ações de violência daqueles menos equilibrados psicologicamente.
A parcela da população menos afetada por esses problemas, às vezes, organiza-se e cria maneiras de demonstrar sua insatisfação por meio de passeatas ou de protestos, o que é inoperante, pois nossos homens de confiança - os Fidélis - não esmorecem com essas manifestações. Continuam a agir às ocultas, dilapidando o Estado e vilipendiando os cidadãos comuns.
Mas há uma manifestação que traz resultados eficientes e que é aquela que nos aflige: o ato violento. O indivíduo que é despojado de seus direitos mais básicos se insurge contra a própria sociedade, já que é esta que lhe oprime, e se delínque, atacando qualquer cidadão que com ele se depare. Uma corja de marginais passa a aterrorizar a comunidade pacífica. E o pior disso tudo: a cada geração de criminosos, menor é a idade do nosso algoz. Se antes éramos atacados por adultos somente, hoje o carrasco tem quatorze, quinze anos.
Essas crianças são armadas pelos Fidélis do Brasil, que não lhe entregam a arma propriamente dita, mas que as munem de ódio pela sociedade. Sociedade que não alimentou o corpo nem o espírito delas, que não as tratou quando ficaram doentes, que não as educou, que não revelou a elas o caminho da esperança, que não permitiu a elas uma vida digna. Essas crianças perdem a inocência própria delas e se transformam em deformidades, em monstros.
A inocência perdida é um dos piores acontecimentos a uma pessoa, pois o antônimo de inocência é indecência. Um dos significados de indecência, segundo o Houaiss, é ''inconformidade às regras do decoro, da moral, do respeito ou dos bons costumes''; ou seja, quem perde a inocência não mais segue regra alguma; passa a ser um marginal.
Um desses indecentes de quatorze anos cruzou o caminho de Isabela e, ao tentar tomar-lhe o relógio, deu-lhe um tiro, que lhe atingiu a cabeça, o que a matou dias depois. Isabela é um nome latino, que pode ser dividido em dois: Isa e Bela. Isa significa ''mulher de muita vontade''; Bela, além de indicar beleza, também significa ''de elevado valor moral'', o que falta a esses desprezíveis Fidélis.
Fidélis, Isabela e a inocência perdida. Enquanto houver os deploráveis Fidélis, dificilmente conseguiremos elevar o valor moral em nossa sociedade e menos crianças conseguiremos salvar. Solução não existe, mas a esperança persiste. O que fazer?


