A GRAMÁTICA NO DIA A DIA
A 'aula' desta semana tratará do aspecto gramatical de letras de marchinhas de carnaval. Vamos a elas, então:


OH! Jardineira Por Que Estás Tão Triste?
''Oh! Jardineira, por que estás tão triste? / Mas o que foi que te aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho, / Deu dois suspiros e depois morreu. / Vem, jardineira! Vem, meu amor! / Não fiques triste que este mundo é todo teu. / Tu és muito mais bonita / Que a camélia que morreu.''
Quero ocupar-me, concernentemente a essa letra, do modo verbal a que chamamos de imperativo, que é o uso do verbo para ordem, pedido, conselho ou apelo. Há regras específicas para o uso desse modo verbal, que dependem de como o interlocutor seja tratado. Vejamo-las:
Se a ordem - ou o pedido, ou o conselho, ou ainda o apelo - for emitida a um interlocutor apenas, é preciso analisar se este é tratado por 'tu' ou por 'você'. Caso seja tratado por 'tu', forma-se o imperativo a partir da frase 'Todos os dias, tu...', retirando-se a letra 's' da estrutura verbal; caso seja tratado por 'você', a partir da frase 'Espero que você...'. Peguemos como exemplo, o verbo 'falar':
Se o interlocutor for tratado por 'tu', forma-se o imperativo a partir da frase 'Todos os dias tu falas', retirando-se a letra 's' da estrutura verbal, o que resulta a forma 'fala'. Este é o imperativo do verbo 'falar' para 'tu': 'Fala a verdade que tu serás recompensado'.
O mesmo acontece se os interlocutores forem tratados por 'vós', o que é raro: 'Todos os dias vós falais', retirando-se a letra 's': 'falai': 'Falai a verdade que vós sereis recompensados'.
Se o interlocutor for tratado por 'você', forma-se o imperativo a partir da frase 'Espero que você fale'. Este é o imperativo do verbo 'falar' para 'você': 'Fale a verdade que você será recompensado'.
O mesmo acontece se os interlocutores forem tratados por 'nós' ou por 'vocês': 'Espero que nós falemos'; 'Espero que vocês falem'. Esses são os imperativos do verbo 'falar' para 'nós' e para 'vocês': 'Falemos a verdade que nós seremos recompensados'; 'Falem a verdade que vocês serão recompensados'.
Observe que os autores, Benedito Lacerda e Humberto Porto, fazem um pedido à jardineira: 'Vem, jardineira! Vem, meu amor!'. Eles a tratam pelo pronome 'tu', o que é facilmente percebido pelo uso do verbo 'estar': '... por que estás tão triste...'. O imperativo, portanto, será formado a partir da frase 'Todos os dias tu vens', retirando-se a letra 's' e substituindo-se o 'n' por 'm', já que está em final de palavra: 'vem'. A forma verbal usada por eles está, portanto, adequada. Aliás, toda a composição está adequada gramaticalmente.
Caso a jardineira fosse tratada por 'você', o imperativo seria formado a partir da frase 'Espero que você venha': Oh! Jardineira, por que está tão triste? / Mas o que foi que lhe aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho, / Deu dois suspiros e depois morreu. / Venha, jardineira! Venha, meu amor! / Não fique triste que este mundo é todo seu. / Você é muito mais bonita / Que a camélia que morreu.'
Se Você Fosse Sincera / ô ô ô ô Aurora.
Se você fosse sincera / Ô ô ô ô Aurora / Veja só que bom que era / Ô ô ô ô Aurora
Nessa marchinha de carnaval, certamente os autores, Mário Lago e Roberto Roberti, se valeram do que denominamos de licença poética, que permite que compositores e poetas usem a linguagem despreocupada do dia a dia, desprezando a gramática normativa. Usaram a estrutura verbal 'era' para rimar com 'sincera'. Se, porém, quisessem construir uma estrutura sintática conforme o padrão culto da língua, teriam de rejeitar o tempo verbal denominado de pretérito imperfeito do indicativo e preferir o futuro do pretérito do indicativo. Vejamos a explicação:
Numa frase formada por duas orações (onde haja dois verbos, cada um apresentando uma ocorrência distinta da outra), se uma delas for iniciada pela conjunção 'se', indicadora de condição, e o verbo tiver a desinência '-sse-', que caracteriza o tempo denominado de pretérito imperfeito do subjuntivo, a outra oração deverá apresentar um verbo que tenha a desinência '-ria-', que caracteriza o tempo denominado de futuro do pretérito do indicativo: (Se / ...sse... /...ria...). Veja alguns exemplos:
- Se eu fosse você, eu leria mais livros. (É inadequado ao padrão culto da língua o uso de 'lia' nessa frase)
- Se ele acordasse mais cedo, não se atrasaria todos os dias. (É inadequado ao padrão culto da língua o uso de 'atrasava' nessa frase)
Na composição musical apresentada, em virtude da licença poética de que se valeram os autores, há a inadequação no uso de 'era', pois há a conjunção condicional 'Se' e a desinência '-sse-'. O verbo 'ser', portanto, tem de apresentar a desinência '-ria-': 'seria': Que bom seria se você fosse sincera, Aurora!.
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