REMINISCÊNCIAS
Nasci em Londrina, em 1959. Mudei-me ainda bebê para Umuarama, no oeste paranaense, onde meu avô paterno, Manoel Henriques Catharino, tinha uma serraria, carrasco das matas ricas em perobas, pau-d'alhos, figueiras-brancas e palmito. Para lá ele foi depois de ter ajudado a desmatar todo o norte do Paraná. Foi desmatar aquela região também. Os homens daquela época - posto que tenham exterminado quase toda a floresta (naquela época ainda não havia a consciência ecológica de hoje) - eram fortes e corajosos. Cortar e carregar uma árvore era tarefa de bravos; não havia espaço para fracos.
Em Umuarama fiquei até os cinco anos, quando voltamos para Londrina, e daqui nunca mais saí, a não ser a passeio ou a trabalho. Da vinda a Londrina, o que me marcou profundamente foi o medo que senti quando meu pai disse que passaríamos debaixo da linha de trem. Comecei a chorar desesperadamente, pois não imaginava a existência de viadutos; a minha mente infantil e ignorante só construía a imagem de nosso carro embaixo do trem. Eu chorava, e meu pai ria; até que passamos sob o viaduto, e meu choro virou estupefação. Foi minha primeira experiência deslumbrante!
Sem água, luz nem asfalto
A vida naquela época não era fácil: não havia água encanada, energia elétrica nem asfalto. A água era retirada de poços artesianos. Tirar água de um poço é um trabalho hercúleo, pois ela se encontra a uns cinquenta metros de profundidade; imagine puxar um balde cheio de água lá de baixo até a superfície. Eu e meu irmão dois anos mais velho penávamos com essa tarefa; os dois puxávamos o balde juntos, pois éramos muito pequenos, por isso sozinhos não conseguiríamos. O esforço, porém, não era infrutífero: a água fresquinha, acabada de sair de um poço é uma delícia! Quem diz que a água é insípida nunca experimentou água de poço.
A geladeira funcionava a gás, e o fogão, a lenha. Para minha mãe, cozinhar era uma labuta, mas as refeições eram um regalo - talvez por serem feitas em panelas de ferro, talvez, em fogão a lenha; não sei, mas lembram-me serem muito prazerosas.
A iluminação conseguia-se por velas, por lampião, a querosene ou a gás, ou ainda por algum subterfúgio: meu pai estacionava seu jipe perto da porta de casa, e da bateria saía um cabo com uma lâmpada na outra extremidade, para nos iluminar; não por muito tempo, pois corria-se o risco de esgotar a bateria do carro. Lembro-me de meu pai brincando com as mãos à frente de uma vela ou do lampião, projetando sombras na parede: coelhinho e cachorro eram os mais fáceis de fazer. Era essa a diversão maior da noite além das histórias de terror que ele nos contava.
Aventura inimaginável
Meus pais também gostavam de ouvir seus discos de vinil, de 78 rotações. Recordo-me da música cantada por Inezita Barroso, ''Maringá'', nome de uma cabocla: ''Maringá, Maringá / Depois que tu partiste /Tudo aqui ficou tão triste / Que eu garrei a imaginar. / Maringá, Maringá / Para haver felicidade / é preciso que a saudade / Vá bater noutro lugar''. Minha mãe vivia a cantar essa música de tal maneira emocionada, que ela se 'encrostou' em minha mente. Saudade imensa daquela época!
Já morando em Londrina, durante a minha infância fizemos várias viagens a Umuarama, para visitar a família que por lá ficou: avós, tios e primos. Essa viagem era uma aventura hoje inimaginável, pelo menos aqui na nossa região. Até Maringá até que ia bem, mas, depois disso, era um areal terrível; se chovesse (o que, no verão, era frequente), não havia jeito de locomover-se; era encalhe na certa. Lembro-me de que algumas vezes a família toda descia do jipe para ajudar a empurrá-lo e, assim, tentar sair daquele lamaçal. Nós é que ficávamos sujos de lama dos pés à cabeça!
Boas lembranças
Era uma vida difícil, mas dela só tenho boas lembranças. Hoje, com as facilidades que há em todos os aspectos aos que têm uma vida confortável, estamos 'no paraíso' (logicamente que àqueles que enfrentam dificuldades a realidade é outra). Os que podem usufruir as benesses da era moderna deveriam ser mais agradecidos e ensinar seus filhos a também o serem. Temos de criar novos valores à sociedade, e um deles há de ser o agradecimento por estarmos numa época em que viver é menos complicado. Esse reconhecimento deixa-nos ainda mais leves, mais simples, mais humanos. Muito obrigado!

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