É digno de um tratado psicológico o que acontece com alguns cidadãos e cidadãs quando entram num automóvel. Pessoas gentis, educadas, solícitas e ternas transfiguram-se quando estão ao volante de seu carro: xingam e gesticulam agressivamente, buzinam impacientemente diante de qualquer vacilo de outro condutor, impedem a passagem de outro carro mal localizado na via, jamais deixam um pedestre atravessar a rua, mesmo que este esteja sobre a faixa de pedestres - a não ser que haja algum fiscal de trânsito à espreita. Aliás, essa faixa, em Londrina, só passou a ser respeitada por alguns em virtude da campanha encetada pelo poder público denominada de ''Pé na faixa''. Antes disso, não passava de uma pintura sobre o asfalto sem valor algum.
A falta de educação no trânsito - tanto do condutor quanto do pedestre - é notória. Basta observar por alguns minutos uma via movimentada e verá o imenso número de infrações cometidas: o sinal vermelho é considerado por muitos um ornamento: está ali para enfeitar a esquina. A calçada é extensão da rua, usada por muitos como estacionamento. Aquela peça que fica ao lado do volante, que se mexe para cima e para baixo quando o condutor quer entrar numa rua, à esquerda ou à direita, nunca é usada por alguns que não obtiveram a educação necessária. A velocidade nas vias urbanas raramente é respeitada pela maioria: o limite é de 80km/h apenas nas vias sem intercessão em nível e sem travessia de pedestre também em nível, o que há em raras cidades; somente as grandes cidades possuem vias assim, como São Paulo e Rio de Janeiro. Nas demais, em via alguma se permite velocidade acima de 60km/h. E o que acontece em 99% das urbes nacionais? Alta velocidade mesmo nas vias locais, aquelas internas a bairros, em que a velocidade não pode passar dos 30km/h!
E nas estradas, então! Os velocistas julgam ter o direito de conduzir seu automóvel a 150km/h, e, se há alguém à sua frente obedecendo à lei, dão sinal de luz, buzinam, gesticulam raivosamente, querendo passar de qualquer maneira. E, se o que estiver à frente o ignora, ultrapassa pela direita mesmo, o que é proibido. Durante as férias escolares, o perigo se multiplica, pois há os turistas, e muitos deles não têm experiência alguma em estrada (esse é um defeito da legislação brasileira; todos deveriam aprender a dirigir em estrada).
Além da falta de experiência, há a falta de noção mesmo: colocam-se inúmeros carros nas rodovias que dão acesso às praias mais procuradas pelos turistas sem o mínimo cuidado: pneus descalibrados - alguns lisos, lisos - rodas desalinhadas, limpadores de para-brisa malcuidados, motor sem revisão, muitas vezes poluindo o meio ambiente. É um espetáculo de horrores.
E a habilidade dos motoristas? Há os que se julgam pilotos; sem, porém, a mínima destreza. Conduzem seus carros a velocidade absurda e, quando começa a chover, mantêm a mesma velocidade. Não sabem esses pobres coitados que, ao menor sinal de chuva, a velocidade deve ser diminuída consideravelmente, o que diminuirá também a possibilidade de acidentes.
Que falta educação a um sem-número de brasileiros é notório. Mas, o que falta também é fiscalização. Quem não tem educação tem de ter punição; tem de saber que há limites, inclusive para a sua ignorância! A fiscalização, porém, também é falha. Em minha cidade, Londrina, por exemplo, nunca vi uma blitz educativa; a lei seca não existe por aqui; a lei do silêncio depois das 22h idem. O poder público não usa sua autoridade para educar o cidadão. Só quem tem educação sabe como agir adequadamente. A punição tem de existir; antes dela, porém, há de haver a educação!
Viajei nessas férias para Bombinhas, SC. Ficamos, Teté e eu, na Praia de Mariscal. Dirigi mais de mil e quinhentos quilômetros, de minha casa ao hotel, ida e volta, e nos passeios que lá fizemos. Passamos por rodovias estaduais - do Paraná e de Santa Catarina - e federais - BR 376 e BR 101. Não vimos uma viatura policial sequer, não vimos um policial sequer. Isso em pleno mês de janeiro, quando essas rodovias ficam apinhadas de carros. Vimos, porém, inúmeras ultrapassagens pela direita e algumas em locais proibidos, motoristas dirigindo pelo centro da rodovia e ''empurrando'' outros para o acostamento, motoristas falando ao celular a 120km/h, um automóvel com seis pessoas, tendo uma no porta-malas interno, segurando-se no botijão de gás, carros soltando calotas pela rodovia, pessoas jogando seu lixo para fora do automóvel. Falta de educação foi o que vimos; autoridade? Nenhuma!
Ambos os problemas têm de ser resolvidos: a população tem de ser mais educada e o poder público tem de agir mais e melhor. Talvez, assim, deixemos de ser os recordistas mundiais em mortes no trânsito!

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