Um dia, sentado num banco que se situa na calçada da praia de Boa Viagem, no Recife, eu apreciava a beleza do mar, cujas ondas se quebram nos imensos arrecifes que dão nome à cidade, quando ouvi um estranho cidadão conversando consigo próprio e dizendo coisas desconexas, porém usando uma linguagem inteligível e palavras incomuns para alguém com sua aparência – um quase mendigo. Lembrei-me até da música de Raul Seixas, cuja personagem dizia ter nascido ‘‘há dez mil anos’’. Recomendo que você, leitor desta coluna, ouça essa música. Sem que ele percebesse, aproximei-me mais um pouco dele, para ouvi-lo melhor e gravar suas palavras. Ele dizia – com orgulho, altivez – algo mais ou menos assim:
  Nas minhas veias não corre sangue, corre a seiva da natureza, verde como as folhas das árvores e a relva que cobre a terra ardente e crepitante, castigada pelo sol esbraseado, exaltado, enfurecido. Essa seiva me faz diferente. Não sou gente como qualquer gente que se vê por aí; sou gente da natureza, sou parte ativa do universo, sou energia que se expande. Sou, sim, qualquer um, pois ninguém me conhece, mas não sou como qualquer um. Não sou um Beatle nem um Rolling Stones, mas sou o que sou, e isso para mim é o que importa, pois eu me importo a mim! Aliás, não quero ser alguma coisa; prefiro ser coisa alguma, pois assim ninguém me incomoda, e eu posso evoluir em paz. Não acredito que façamos parte de um plano maior, como acreditam os irmãos Oasis. Não há plano algum, Liam e Noel! Quanto mais um plano maior! O que há é pura e simplesmente essa vida que acompanhamos toda a vida; é um querendo espoliar o outro o tempo todo! É pura competição. E é competição selvagem, animal! Eu, então, prefiro viver meu mundo.
  Assim, ele seguia com seu monólogo, não se importando com quem estivesse ao seu redor. Às vezes se silenciava e ficava a apreciar as ondas e o verdor das águas típico das praias nordestinas. Às vezes olhava para o alto e se perguntava: ‘‘Onde estão as gaivotas?’’ Às vezes olhava para mim, e eu me escondia atrás de meus óculos escuros, com medo de que percebesse que meu interesse ali era sua conversa desconexa, mas acho que ele nem me via. Às vezes se concentrava em suas mãos e ficava minutos inteiros a olhar seus dedos detalhadamente. Parecia buscar alguma coisa.
  Sabia que já fui pescador? – disse ele, de repente, ao ‘‘ninguém’’ com quem se comunicava – Sabia que já singrei esses mares à busca do inatingível? É isso mesmo! Eu buscava o inatingível lá no meio do oceano, porque não era peixe que eu queria. Eu queria saber o porquê de tudo isso e, do lado de cá, em terra, eu não encontrava nada que me trouxesse a resposta. Fui buscá-la com os peixes e com as gaivotas que circundavam meu barco. Lá, naquela solidão, eu conversava com eles, e eles me deram a resposta várias vezes! Esse populacho perambula pelas ruas sem saber que o inatingível se atinge. É só saber onde ele está! E sabe onde ele está? Aqui mesmo! – e batia o indicador em sua fronte. Aqui mesmo! Os peixes e as gaivotas sabem disso. Onde estão minhas gaivotas? E os peixes? Não consigo mais encontrá-los!
  Tem gente que fala que o sol é maravilhoso! – continuava. Caminhar pela manhã ou no fim da tarde para mim não significa apreciar o sol em seu começo ou em seu esplendor. Nada mais é do que o sol. Não me importa se você o ache lindo. É só o sol queimando minha pele. E, aliás, é um saco tudo isso! Para que buscar o belo com os olhos se dentro de você não há beleza alguma?
  Por gentileza, sirva-me mais uma dose de vodka antes de – agora não quero nem conversar, já lhe disse! O meu mundo não é o mesmo que o seu. Você vê uma bela cachoeira enquanto que o que eu vejo é apenas água caindo sem função alguma. É só água, Filisteu! É só árvore, é só pedra, é só passarinho voando! Que mania você tem de querer encontrar o que não existe. Eu já lhe disse. Está aqui, ó! Vá lá no fundo que você aprenderá!
  Sabia que eu já tive boas ideias para o universo? Mas Deus não estava disponível para me ouvir. Ele não teve tempo para mim. Nem Ele, nem meu pai, nem minha mãe, nem ninguém que eu conheci! Ninguém tem tempo para ouvir! Você me fala de Deus, mas eu lhe pergunto: onde estava Deus na minha vida toda? Onde esteve ele o tempo todo em que eu O chamei para conversar, Ele e todos os outros? Nunca tive resposta alguma! Tentei muitas vezes, mas desisti por fim. Ninguém tem tempo para ninguém!
  De repente, ele se levantou como se tivesse levado um choque e saiu apressadamente repetindo essas últimas palavras a todos que por ali caminhavam, passeavam, admiravam a beleza da praia, degustavam algo nos quiosques. Parava defronte às pessoas e, olhando nos olhos delas – o que incomodava mais do que as palavras – dizia em tom de desespero e agonia: Ninguém tem tempo para ninguém! Ninguém tem tempo para ninguém! Assim desapareceu o cidadão quase mendigo. Foi-se sabe-se lá para onde, sem deixar identificação. Não tive tempo para lhe perguntar.

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