MOMENTO CRUCIAL
Aquele foi o momento crucial em sua vida Ela tinha treze anos e já amargava uma decisão de tamanha envergadura Havia tempos ela temia que ocorresse algo semelhante, mas não esperava que fosse tão contundente assim; não esperava que a dor fosse tão dilacerante Sabia também que sua resolução traria sofrimento, mas não julgava que se importaria tanto com isso, afinal já vinha sofrendo bastante com a grande indelicadeza e incivilidade com a qual o pai a tratava, além da frieza que desde sempre caracterizava aquele ser, infelizmente seu progenitor
Ele era uma criatura bestial em todos os sentidos: bestial porque tinha atitudes que o assemelhavam a um animal irracional, principalmente quando gritava com sua mãe (dela) e lhe dirigia (à mãe) palavrões inconcebíveis a um ser humano com o mínimo de civilidade; bestial porque tratava a tudo e a todos com ferocidade, dando a impressão de odiar o mundo e todos aqueles que o habitam; bestial porque se deleitava com prazeres imorais, sórdidos mesmo, que não escondia de ninguém; bestial, enfim, porque era repugnante aos olhos de uma inocente menininha ver que todas essas características somadas resultavam nada mais, nada menos, que seu pai

ANGÉLICA E ÂNGELUS
Seu prenome era Angélica Ironicamente, o pai que o havia escolhido porque, quando nascera, parecia, segundo ele mesmo, um anjinho, e para que se assemelhasse ao seu próprio nome: Ângelus; nome escolhido por seu avô (dele), pois ele nascera exatamente na hora dos ângelus, toque do sino que anuncia aos fiéis a hora da ave-maria Sua família era muito religiosa: todos os dias se rezava à Virgem Maria ao amanhecer, ao meio-dia e ao anoitecer Ele crescera ao redor de saias impolutas, das quais se exalava o cheiro de velas queimadas dia a dia, o dia todo, a santos e santas, a mortos e a vivos, a doentes e a convalescentes, a amigos e até a inimigos!
Como, pensava ela, numa família em que a religiosidade eram os princípios, as normas, a regra, poderia ter nascido alguém tão desumano, tão cruel como ele, que não respeitava a integridade de ser algum? Ela resistira até os treze anos Não se opunha quando era surrada por qualquer ''me dá cá essa palha'' Todos, porém, eram surrados por seus pais: irmãos, primos, amigos, vizinhos, conhecidos distantes Era de praxe; ela não podia reclamar Assim era a cultura da época Não sucumbiu quando sua mãe abortou por causa de um chute que lhe deu o ignorante Conservou-se firme quando se descobriram dois ou três filhos dele com outra mulher; outra família noutro bairro da cidade


NÃO RESISTIU ÀQUELA INCIVILIDADE
Não resistiu, porém, àquela incivilidade Não que tenha sido a pior dentre todas, mas foi a 'gota d'água' Era exatamente sobre isso que ela falava com a mãe e as irmãs: a quantidade de água que caía do único chuveiro da casa Era muito trabalhoso banhar-se daquela maneira, e ela dizia isso inocentemente Nem reclamação era; era uma constatação: ''É difícil tomar banho com tão pouca água caindo desse chuveiro!'' Isso todos sabiam, inclusive o energúmeno, chefe daquele lar Naquele momento, porém, ao ouvir essas palavras ditas - até que delicadamente, mas num tom de desprezo - por sua quinta filha (havia outras três, e mais dois filhos), ele se levantou da poltrona onde se sentava todos os dias para ler o jornal e puxou-a pelos cabelos ainda molhados com tanta violência que a tirou do chão por alguns segundos e a jogou sobre a mesinha de vidro da sala, que se espatifou com seu peso, e passou a chutá-la com um ódio estarrecedor, gritando ''Repita isso, e eu a arrebento! Pensa que mora em hotel?''
Ela ficou muito machucada, tanto pelos vidros espatifados no chão, sobre os quais caiu, quanto pelos chutes no corpo e na cabeça O pior, porém, não foram as dores físicas, mas a emocional: ela nunca vira um olhar tão odiento, ou seja, com tanto ódio Aquele foi o momento crucial de sua vida Ali, caída em meio aos cacos de vidro, com vários cortes no rosto e na cabeça, alguns profundos, tomou a decisão que mudaria sua vida Decisão que lhe traria sofrimento - muito mais do que imaginara - e que poderia também lhe trazer arrependimento


FIGURA MONSTRUOSA
Resolveu que, daquele momento em diante, aquela figura monstruosa não mais faria parte de sua vida Pôs fim ao seu relacionamento com aquele que um dia lhe carregara no colo e lhe tratara bem apenas nos primeiros anos de existência Estava decidido: não tinha mais pai! Fugiria de casa na primeira oportunidade Foi o que fez Nunca mais voltou
No começo, fora-lhe muito difícil; piorou nos meses subsequentes, mas, aos poucos, sentiu o alívio de não mais olhar aqueles olhos execráveis que tanto a magoaram e a todos os que a eles têm de olhar Sofreu muito, mas foi um sofrimento de desafogo, de desopressão
Faz mais de quarenta e cinco anos que abandonou sua casa Nunca mais viu ser algum daquele lugar Hoje recebeu a notícia da morte daquele que a afligiu tanto, que a devastou sobremaneira Sentiu vontade de chorar, mas não chorou Saiu pelo quintal assobiando a sua música preferida

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