Ninguém mais sabia mais o que fazer com ele A preocupação inicial deu lugar ao desânimo; agora já preanunciava um tímido desespero As refeições já não eram tranquilas; o dia a dia, carregado de tensão A mãe chorava pelos cantos a dizer que entraram ciscos nos olhos A irmã mais velha vivia a conversar com a vizinha, que tinha enfrentado problemas com seu filho havia alguns anos, na tentativa de captar dicas de como proceder em situações desse naipe Ela não dizia à vizinha que poderia ter um problema similar em casa; eram conversas amenas, como se fosse curiosidade, e a vizinha acabava desabafando-se por não ter com quem conversar
Ele - o rapaz - tinha dezoito anos e estudava a terceira série do Ensino Médio Já havia reprovado uma vez Era uma boa pessoa, nunca dera trabalho algum, mas, de uns tempos para cá, o seu rendimento escolar caiu vertiginosamente As notas, que já rondaram a casa dos 70, 80, agora não passavam de 50, 55, quando não 30, 35
O seu material escolar, que antes era visivelmente manuseado, agora parecia recém-saído da editora, elegantemente conservado em suas características de fábrica, sem um amassadinho em sua capa, sem uma dobra em suas folhas à guisa de marcador de página, sem nem uma torção no arame que as prende, sem ao menos aquela sujeirinha comum ao papel branco quando manuseado por jovens que costumam ler deitados no chão, rolando de um lado a outro e se enchendo de poeira dessa terra vermelha que caracteriza a cidade de Londrina; nem sequer uma gordurinha - aquela pequena nódoa peculiar ao material de adolescentes que folheiam seus cadernos e apostilas ao mesmo tempo em que abocanham um sanduíche ou um prato de batatinhas ou de outra substância gordurosa que só eles conseguem consumir - manchava seus apetrechos; livros, cadernos, apostilas, estojos, tudo escapava incólume do manuseio meses a fio Limpos como incubadora de recém-nascidos prematuros
A escola, que antes só tinha elogios para o garoto, agora apresentava um rosário de reclamações: chega atrasado; dorme nas aulas; quando não dorme, não olha para o professor, mas sim através dele, ou seja, apresenta um olhar perdido no espaço; não participa das aulas; quando indagado por algum professor, nada sabe responder; quando responde, balbucia Transformou-se num aluno relapso, negligente
Meu Deus! Será droga? Refletia a mãe, atemorizada pela ideia de ter um filho viciado e pela possibilidade de enfrentar a vergonha perante os vizinhos, amigos e familiares Ela até já tinha pensado em conversar com o marido, pai do rapaz, a respeito disso, mas o receio era maior, pois sabia que, se ele somente imaginasse a possibilidade de ter um filho drogado, teria tão somente uma reação: uma surra homérica, daquelas de deixar o menino de cama, como já acontecera em outras ocasiões Não, não; droga seria pior; ele seria capaz de expulsar o filho de casa sem nem ao menos confirmar a veracidade da informação Assim era o pai do rapaz Não tinha paciência com os familiares; sempre estava cansado pelo trabalho diário, por isso não queria saber dos problemas alheios
- Tenho problemas demais para ter que me preocupar com vocês! - Era o que ele dizia sempre
O tempo passava, e a situação só piorava E ninguém na família ousava conversar sobre isso - nem entre si nem com o garoto Até que, num Congresso do qual a irmã participava, esta conversou com um psiquiatra que lá conhecera, expondo-lhe suas preocupações Este simpatizou com ela e decidiu escutá-la com atenção Gostou dela Por isso determinou-se a ajudá-la
Depois de muitas visitas, conversas, análises dissimuladas e exames clínicos disfarçados, o psiquiatra e, agora, quase namorado da irmã, chegou a seu diagnóstico: o problema do jovem estava na ausência da autoridade paterna - não somente da autoridade, mas da figura paterna mesmo - e nas ações maternas de tentar encobrir os problemas familiares O rapaz estava usando drogas, sim, mas eram remédios que um amigo lhe dera para manter-se acordado, pois todas as noites (TODAS AS NOITES) ele e seus amigos ficavam na internet até três, quatro horas da madrugada - cada um em sua casa; todos sem fiscalização da família - e, por isso, não tinham energia alguma durante o dia para viver uma vida normal, e os remédios lhes provocavam uma reação de letargia quando findava o efeito
O psiquiatra, agora noivo da irmã, conseguiu pôr ordem naquele lar: elucidou aos pais que a educação não ocorre por si só, que a presença dos pais é fundamental e que uma família só se constitui se houver cumplicidade entre seus membros, que precisam conviver uns com os outros Esclareceu-lhes que a internet é benéfica só se for bem usada Jovens de Ensino Médio não devem ficar mais de duas horas ininterruptas, no máximo três vezes por semana, defronte ao computador, pois isso lhes trará prejuízos certamente
Essa família foi salva por um relacionamento, que ajudou a modelar outros relacionamentos Infelizmente são poucas as famílias decaídas que têm essa sorte Estas precisam aprender a conviver por si sós

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