Esta é uma história bem antiga: narra as aventuras de dois irmãos, inseparáveis, Osnildo e Osney; tão inseparáveis eles eram que se tornaram um o melhor amigo do outro a despeito de aquele ser dois anos mais novo do que este. Ademais era ele, também, dentre os dois, o mentor. Ele quem decidia, quando jovenzinhos, que brincadeiras, que jogos, que folguedos iriam tornar seu tempo de ambos mais agradável; ele quem escolhia, quando adolescentes, que passeio fariam: se iriam ao cinema, ao parque de diversões ou ao horto florestal, ou, ainda, se simplesmente ficariam em casa a contemplar o quintal ponteado de árvores frutíferas e os pássaros que das frutas se fartavam. Ele quem estipulava o tempo que cada um teria para fazer os deveres da escola, para tirar uma soneca depois do almoço, para banhar-se, seja no riacho próximo de sua casa, seja no chuveiro mesmo. Ele, somente ele, quem escolhia os amigos para o jogo de futebol e os amigos e as amigas para os festins que realizam de quando em vez. Não que ele fosse um tirano com o irmão; o outro é que não se decidia nunca a agir por si e julgava mais fácil viver à sombra do caçula, sem precisar se incomodar em tomar decisões, o que era muito doloroso para ele, o primogênito.
O caçula, que passaremos a chamar de Nil, como era conhecido por todos, na realidade, era detentor de qualidades raras. Vejamo-las: era atencioso para com todos, sempre pronto para escutar o que tinham a lhe dizer; aceitava as virtudes e os defeitos dos demais com naturalidade e sempre tinha um elogio a fazer e raríssimas críticas a exprimir - se as houvesse, eram, sem exceção, construtivas; agradecia, sinceramente, sem se manifestar demasiadamente, o relacionamento de amizade que as pessoas lhe dedicavam e era afetivo, muito afetivo - sua maior preocupação era afetar positivamente o comportamento das demais pessoas. Em tudo que empreendia, a intenção essencial era manter o foco no outro. Essa é uma das qualidades humanas mais raras e que sobejava nele; ele tinha alteridade, cujo significado é ''característica do que é outro''; tem alteridade, segundo minha interpretação depois de estudar esse tema, quem pensa no outro antes de praticar qualquer ação que possa afetar o outro.
Já o primogênito, a quem passaremos a chamar de Ney, pois assim o chamavam todos desde o dia de seu nascimento, era o oposto a Nil: desatencioso, crítico destrutivo, mal-agradecido, e nada, nada afetivo; pode-se dizer que era insensível às preocupações dos outros, mas era ''bonzinho''; não agia por maldade. Era assim porque era assim.
Um episódio que pode ilustrar bem o que lhes estou narrando é o que ocorreu num aniversário de casamento deles. Antes, deixe-me contar-lhes como se sucedeu tais casamentos: Nil se enamorou de uma bela jovem e com ela passou a ter um relacionamento de amizade; ela tinha uma irmã gêmea, a quem Nil apresentou a Ney. Coincidentemente (mais por ação de Nil), no mesmo dia formaram-se dois casaizinhos; começaram a namorar na noite em que ambas completaram dezoito anos. Casaram-se dois anos depois (os dois com as duas).
Numa antevéspera de aniversário de casamento, ambas manifestaram a necessidade de uma panela de pressão (Sim, caro leitor, uma panela de pressão! Lembre-se de que é uma história antiga. Naquela época, dava-se muito valor aos utensílios domésticos, e a panela de pressão era, inclusive, um bom presente de casamento). Muito bem; ambas precisavam de uma panela de pressão. No dia do aniversário, Nil pergunta a Ney se estava tudo certo para a festa, e este, vacilante, quase perguntava ao irmão ''Que festa?'' quando se lembrou do que se tratava e de que havia esquecido o presente. Correu à loja de departamentos mais próxima, comprou a primeira panela de pressão que encontrou e levou-a para casa naquele pacote tradicional que é feito a todos que compram qualquer objeto na loja.
Nil, precavido, já havia comprado a sua. Ele, porém, afetivo como ninguém, pensou que uma simples panela de pressão não seria um presente à altura de seu relacionamento com a esposa. Passou numa joalheria e comprou um pequeno anel de brilhantes - não caro; simples, mas bonito. Antes de embrulharem a panela num belo pacote, ele fixou a caixinha com o anel no fundo da panela, de modo que não fosse identificado antes de a abrir. Comprou também um botão de rosa e o afixou no cabo da panela caprichosamente, de sorte que a flor em si ficasse no centro da tampa.
No momento de entregar o presente, a diferença se estampava na feição das irmãs: a esposa de Ney, que ganhou o que queria e de que precisava, mas recebeu um mero pacote sem valor sentimental algum, frustrou-se com o aniversário. A de Nil emocionou-se com a preocupação e o carinho de seu marido: ganhou o que queria e de que precisava e recebeu algo a mais. O mais importante não foi o que recebeu de concreto: uma panela, um anel e uma rosa; mas como a ação se desenrolou. Emocionou-se porque se sentiu valorizada e amada. E isso é o que mais importa em nossa vida: menos matéria, menos concretude; mais sentimento, mais emoção.

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