INDEPÊNDENCIA, NEUTRALIDADE OU COVARDIA?
Marina Silva, que foi candidata à presidência da República pelo PV, optou por não apoiar Dilma nem Serra no segundo turno das eleições presidenciais de 2010. Ela e seus correligionários chamaram isso de independência; alguns jornalistas preferiram chamar de neutralidade; li uma carta de um leitor de jornal usando a palavra covardia. Afinal, Marina é independente, quis ficar neutra ou é covarde?
  Para Montaigne, pensador francês do séc. XVI, ‘‘os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo’’. Não pretendo, portanto, me dedicar a criticar tal ou qual ação, seja de Marina, de alguma jornalista ou de um cidadão comum que emitiu sua opinião, até porque em outras circunstâncias estes ou aquela poderiam tomar decisão diversa da realizada. Assim somos nós, os humanos. Deparamo-nos cotidianamente com tal diversidade de ações e de decisões a serem tomadas, que adquirimos uma instabilidade natural em nossos costumes e opiniões. Se assim o somos como humanos, quem dirá como políticos.

O QUE DETERMINA A CONDUTA
  Concernentemente às decisões de outrem, é preciso ponderar atenciosa e maduramente, para entender as motivações que levaram tal indivíduo a tomar esta ou aquela atitude. Há de esclarecer que motivação, segundo o dicionário Aurélio, é o conjunto de fatores psicológicos, conscientes ou inconscientes, de ordem fisiológica, intelectual ou afetiva, os quais agem entre si e determinam a conduta do indivíduo.
  Marina teve suas motivações para optar pela independência política: fatores psicológicos não lhe faltaram para não querer se unir a um ou a outra nessa empreitada. Sim, empreitada, pois para ela seria uma obra por conta de outrem. Ela assumiria uma posição que beneficiaria um dos dois candidatos restantes, o que para ela e para a concretização de seu objetivo político não seria profícuo, pois vencendo ou não as eleições, o(a) candidato(a) favorecido(a) por seu apoio não colocaria em prática o seu plano (dela) de governo e as suas ideias (delas) de progresso sustentável, e sim aquele que foi preconizado por seu próprio partido. De mais a mais, o(a) aliado(a) de hoje poderia tornar-se o(a) adversário(a) de amanhã. Assim é a política.
FATORES PSICOLÓGICOS

DE ORDEM INTELECTUAL
  Há fatores psicológicos conscientes de ordem intelectual para assumir tal posição, pois, como ela já fez parte do governo do PT e dele saiu com críticas veementes contra o partido, contra o Presidente da República e contra a atual postulante a este cargo, acredito que, ao aventar a possibilidade de a apoiar, tenha tido muitas reflexões sobre o quanto isso seria desgastante, tanto para a sua imagem quanto para a sua consciência. E quanto ao outro candidato, não se esqueçam de que, por várias vezes, ela tenha afirmado que são todos ‘‘farinha do mesmo saco’’ e que ambos ‘‘são reféns do que há de pior na política brasileira’’.
  Se ela passasse a apoiar um deles, certamente sofreria algum fator psicológico fisiológico, pois imagine-a elogiando agora a quem criticou num passado recente; no mínimo um mal-estar ela teria, pois o organismo responde ao humor do indivíduo ou à carga de estresse a que ele é submetido. E também o fator afetivo seria importante nessa decisão, já que o equilíbrio dela entre a razão e a emoção estaria proporcionalmente prejudicado em relação aos políticos com os quais ela teria de dividir o palanque.

AGIR COM AUTONOMIA
  Creio que foi uma decisão muito bem pensada, inclusive pelo fato de ela ter decidido se declarar independente, e não neutra. Neutro é aquele que não se posiciona, que se abstém de tomar partido, que é imparcial; independente é aquele que age com autonomia, que se mantém livre de influência; e covarde é aquele que se caracteriza pela ausência de bravura, de valentia, é aquele que age com temor, que demonstra medo.
  Marina Silva demonstra firme posição e energia diante de uma situação difícil; covarde não é, portanto. Ela tem uma posição clara quanto ao que deseja para o Brasil e não é imparcial; neutra, então, também não é. E pelo fato de se posicionar contra os dois candidatos, mostra que não se deixa influenciar, que age com autonomia. Independente é o que ela demonstra ser.
  Independência, então, é o nome certo do que ela fez. Não é pelo fato de ter recebido quase vinte milhões de votos que ela tem de ser obrigada a apoiar um dos dois candidatos restantes. Quem tem posicionamento firme concernentemente a qualquer assunto, não deve mudar os rumos de sua caminhada por ter enfrentado uma dificuldade, e sim fortalecer-se, sem dar em penhor moral a sua própria biografia.

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