EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de junho de 2010
Dilson Catarino 
EXISTÊNCIA
O velho cão gania à porta da pequena casa. / A lua, espreitando por entre os galhos das árvores, / assemelha-se a lanterna etérea, / reverberando-se por entre a densa neblina.
A passos lentos e pesados reviso minha airosa existência / e sinto que não existo; / são os outros que me percebem como querem que eu seja.
Dói-me o corpo; não posso abaixar-me: escoliose, cifose. / Sinto saudades das andanças por ruas quase desertas, / voluptuosas ruas de minha adolescência, / nas úmbrias madrugadas, com muitas cervejas e amigos.
Não que a tristeza tenha pousado em minha sina; / é só saudade mesmo. / Há muito do meu passado que quero apenas no passado.
Moldei-me; já não sou o mesmo de outrora - estranho se o fosse. / Não tenho tempo mais para frases soltas. / O silêncio habita meu mundo, mas não há o vazio, / não há a solidão ou os sentimentos entorpecidos, / o que há é uma obstinada sensação de veleidade.
As fantasias contorcem-se na essência da memória, / frêmitos lancinantes misturam-se com desejos obcecados, / distendendo meu corpo numa lassidão sublime,
e eu fico sem saber o que o velho cão, / ganindo à porta da pequena casa, / tem de interessante para entrar nessa história.
SUA PELE EM MINHA PELE
Gosto de sentir sua pele / em minha pele sua boca /
em minha boca seus cabelos / em meu rosto seu corpo /
em meu corpo sua mente / em meu mundo seu mundo /
em minha mente seu passado / em meu futuro seu futuro / em meu presente.
Gosto de ser seu presente / você é meu destino desatino /
me deixa menino pequenino / quando cafuné me faz /
quando suas unhas riscam / minhas costas como resposta / arrepio-me por puro prazer.
Quero fazer seu prazer / quero a seus pés me entreter /
quero em você me perder / em você me prender / e me render.
Não adianta / de sua vida não saio / dentro de você desmaio /
sou um raio / tênue aconchegante /
sou a lua radiante / em seu céu sem fim / eu sou o fim.
EU E VOCÊ
quero porque quero querer / seu cheiro em minha vida /
não me importa se é já / ou se é muito depois
o que me importa é / ter um filme a assistir / ou cervejas a tomar /
porém sempre com você
o que quero é estar / no seu sonho ou pesadelo /
e por acaso penetrar / em seu mundo de quimera
você é a minha madrugada / é meu carinho em um cão sem dono /
é meu sonho em uma estrada de madrugada / é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada / é a minha própria madrugada
você sem mim / é meio sem fim
eu sem você / sou todo sem quê. /
sou inteiro sem porquê / sou montante sem sem /
sou eu sem ser você / sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond / o duro é estar Byron /
querendo estar em você / e sentir-me com você
e meio sem saber / sempre sou você
EU EM VOCÊ / VOCÊ E EU
Sem você não me há o eu / Falta-me o que não sou / Pois só sou com você


