A QUESTÃO DO DESINTERESSE POLÍTICO
  Con­fes­so que, quan­do eu era jo­vem adul­to, não me in­te­res­sa­va aber­ta­men­te por po­lí­ti­ca e que, sem­pre que al­gum co­nhe­ci­do aven­ta­va a pos­si­bi­li­da­de de fa­zer par­te ofi­cial­men­te dos ‘‘re­pre­sen­tan­tes do ­povo’’, eu pas­sa­va a vê-lo com ­olhos de dú­vi­das con­cer­nen­te­men­te ao seu ca­rá­ter. Já hou­ve épo­ca em que eu pró­prio pen­sei em ser um de­les, mas o re­ceio de ser jul­ga­do um fa­lho de ca­rá­ter fez-me re­tro­ce­der.
  Ho­je sei que es­ta­va er­ra­do, ­pois ve­jo que, ape­sar da exis­tên­cia de mui­tos cor­rup­tos e de ­maus po­lí­ti­cos, so­men­te a mi­no­ria dos que ocu­pam car­gos po­lí­ti­cos é aé­ti­ca; a maio­ria age con­for­me os pa­drões de nor­ma­li­da­de, ou se­ja, age se­gun­do as re­gras da so­cie­da­de, ín­te­gra e ho­nes­ta­men­te. O pro­ble­ma é que a mi­no­ria cor­rom­pi­da é que ocu­pa a ­maior par­te das pá­gi­nas dos jor­nais e das re­vis­tas e do ho­rá­rio no­bre na te­le­vi­são. Já os ho­nes­tos não apa­re­cem mui­to, ­pois seu tra­ba­lho acon­te­ce de acor­do com o que tem de ser, e is­so não ven­de jor­nais, a não ser que apre­sen­tem al­go gran­dio­so à so­cie­da­de.


QUEM SE INTERESSA POR POLÍTICA?
  Arnold Toynbee, economista inglês do séc. XIX, que lutava pela melhoria nas condições de vida dos trabalhadores ingleses, escreveu a seguinte frase: ‘‘O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam.’’ Segundo ele, portanto, os que se interessam por política são, no mínimo, mal-intencionados, pois, se ser governado pelos que se interessam é um castigo (e o maior deles!), claro está que não será um bom governo.
  Será que podemos concordar com Toynbee? Os que se interessam por política só se interessam por si? Não se pode generalizar. Há os bons e há os maus. Há os que pensam no bem comum e há os gananciosos e egoístas. Isso em todos os lugares, em todas as áreas. Ou você pensa que todos os que estão ao seu redor, trabalhando com você, agem como deveriam agir mesmo? Em todos os escritórios, lojas, escolas, indústrias, etc., há representantes da minoria corrupta e aética. É só procurar com atenção que achará alguns deles ao seu lado.


O HOMEM É UM ANIMAL POLÍTICO
  Pa­ra Aris­tó­te­les, fi­ló­so­fo gre­go do séc. IV a.C., ‘‘o ho­mem é por na­tu­re­za um ani­mal ­político’’. Po­li­ti­ca­mos o tem­po to­do, no sen­ti­do de ter ha­bi­li­da­de nos re­la­cio­na­men­tos com os de­mais, pa­ra bus­car os re­sul­ta­dos de­se­ja­dos: Con­quis­tar o co­ra­ção da pes­soa ama­da é fa­zer po­lí­ti­ca; con­se­guir au­to­ri­za­ção dos ­pais pa­ra ­sair é fa­zer po­lí­ti­ca; plei­tear um au­men­to de sa­lá­rio é fa­zer po­lí­ti­ca; pe­dir des­con­to nu­ma lo­ja é fa­zer po­lí­ti­ca. Nós fa­ze­mos po­lí­ti­ca cons­tan­te­men­te; so­mos po­lí­ti­cos por ex­ce­lên­cia. O que nos fal­ta - não a to­dos, mas a uma gran­de par­ce­la da po­pu­la­ção -, é pas­sar a pen­sar na po­lí­ti­ca co­mo a or­ga­ni­za­ção das ci­da­des, dos es­ta­dos, da Na­ção. Fal­ta-nos pen­sar a po­lí­ti­ca co­mo um tra­ba­lho em ­prol do bem co­mum.
  Não ve­jo ne­ces­si­da­de de me can­di­da­tar a um car­go ele­ti­vo pa­ra fa­zer po­lí­ti­ca em ­prol do bem co­mum. Pos­so ser mui­to ­útil à so­cie­da­de fo­ra dos ga­bi­ne­tes. Pos­so pres­tar ser­vi­ços à co­mu­ni­da­de, re­tri­buin­do-lhe o que ela me pro­por­cio­nou de bem em mi­nha vi­da, au­xi­lian­do as de­mais pes­soas na­qui­lo que do­mi­no, em se tra­tan­do de co­nhe­ci­men­to, ou tra­ba­lhan­do em ser­vi­ços vo­lun­tá­rios.


EXERCER CARGO PÚBLICO
  Há al­gum tem­po, num jan­tar, con­ver­sa­va com um po­lí­ti­co, que me dis­se que to­dos, pa­ra co­nhe­cer a po­lí­ti­ca, de­ve­riam exer­cer um car­go pú­bli­co por, no mí­ni­mo, qua­tro ­anos. Eu lhe dis­se que dis­cor­da­va e que acha­va que to­dos de­ve­riam exer­cer um car­go pú­bli­co por SO­MEN­TE qua­tro ­anos. Tal­vez se­ja es­se o pro­ble­ma da po­lí­ti­ca. A pos­si­bi­li­da­de de se trans­for­mar num po­lí­ti­co pro­fis­sio­nal e de ter a vi­da sus­ten­ta­da pe­la po­lí­ti­ca tal­vez se­ja a gran­de res­pon­sá­vel pe­la for­ma­ção do cor­rup­to (se é que já não es­tá for­ma­do o ca­rá­ter do cor­rup­to).
  De­ve­ria ser co­mo o Ser­vi­ço Mi­li­tar: uma obri­ga­ção tra­ba­lhar pe­la co­mu­ni­da­de. Toyn­bee, po­rém, fa­lou de ‘‘­governar’’, não de tra­ba­lhar pe­la co­mu­ni­da­de. Ocor­re, no en­tan­to, que, se hou­ver bas­tan­tes pes­soas de bem pen­san­do no bem co­mum, ­mais gen­te boa co­nhe­ce­re­mos pa­ra ele­ger co­mo nos­sos re­pre­sen­tan­tes e go­ver­nan­tes. ­Mais pes­soas in­te­res­sa­das por po­lí­ti­ca não pen­san­do em si so­men­te.
  Ca­da um de nós de­ve­ria pen­sar nis­so e pas­sar a ­agir as­sim. Mas tem de ser ago­ra, ­pois, co­mo tam­bém es­cre­veu Toyn­bee: ‘‘O tem­po cer­to pa­ra co­me­çar não é ama­nhã ou na pró­xi­ma se­ma­na, mas ­agora’’.

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