EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de fevereiro de 2010
Dilson Catarino 
Enquanto se espera viver, a vida passa
Sêneca, um dos mais importantes intelectuais do império romano, filosofava constantemente sobre a maneira mais adequada de viver. Dizia, inclusive, que ele próprio não levava a vida que deveria levar e que o ideal seria todos terem rigidez de princípios morais em todos os momentos, sem estratagemas. Viver bem, de acordo com ele, é agir segundo os preceitos estabelecidos pela sociedade e praticar os valores que norteiam as relações sociais e a conduta humana.
Nós, cidadãos brasileiros do séc. XXI, temos esses princípios propagados por Sêneca como verdadeiros ou para nós isso não passa de teoria filosófica ou religiosa? Quais os ensinamentos que nos norteiam? Acredito que as respostas a essas perguntas não sejam, infelizmente, tão animadoras quanto deveriam ser, pois os ditames morais que imperam em nossa sociedade não representam exemplos dignos de serem copiados, por isso a maioria da população, descrente da existência de uma verdadeira moral, esquece-se da sua situação de sujeito de seu próprio processo existencial e se deixa levar pelos cidadãos mais sagazes, esperando que estes sejam os agentes das mudanças necessárias, e não promove a transformação de sua própria vida. Passa a esperar que a vida aconteça e não vive. A vida simplesmente passa.
A sociedade está apática
A sociedade está apática. Há um estado de insensibilidade emocional em nosso meio que faz tudo parecer aceitável: os assentamentos e as favelas crescem a olhos vistos, dia a dia, criando miseráveis e marginais que ameaçam o bom funcionamento das grandes cidades? Se o cidadão de bem passa por um desses miseráveis e famintos, desvia o caminho ou ao menos o olhar, para não tomar conhecimento dessa realidade. Aliás, toma-se conhecimento disso quando se é vítima de um assalto ou de um ato de violência qualquer ou quando um ente querido é a vítima. Nesse momento, pensa-se em direitos do cidadão (seu próprio), criam-se ONGs, realizam-se passeatas, até terminar a dor ou a indignação, quando tudo volta ao normal e o sofrimento se transforma em má lembrança.
Vereadores desonestos são presos? Deputados, ministros e senadores corruptos são afastados ou renunciam para não perderem os direitos políticos? Só os que participam do meio político (quando honestos), os membros do ministério público e a imprensa, além de alguns cidadãos indignados, são afetados por esses acontecimentos; o grosso da população nem toma conhecimento dos fatos, pois não leem jornais nem revistas e assistem aos jornais televisivos como veem os filmes da seção da noite: apaticamente; mero passatempo. E, para piorar, há uma grande parcela da população que não tem acesso a jornais, revistas, televisão. A esses resta o obscurantismo total.
E assim caminha a humanidade...
Porto Príncipe, no Haiti, foi destruída por terremotos? São Paulo e dezenas de outras cidades brasileiras sofrem com as enchentes? ''Ainda bem que não é aqui'', dizem alguns indivíduos insensíveis. Guerra entre judeus e palestinos? De que país são os judeus? Que querem os palestinos? Poucos são os que saberiam dar uma resposta ao menos aceitável.
E assim caminha a humanidade, sem o sentimento ''humano'' de fato, sem o sentimento que move as pessoas a agirem em prol de seus semelhantes: a compaixão. Parece que as pessoas esperam por um milagre, por um messias, que traga paz, liberdade, justiça, que estabeleça uma nova ordem social, na qual não haja sofrimento a ser humano algum. Esperam, esperam, esperam e votam nos espertalhões, nos finórios, na expectativa de que esses estabeleçam o bem-viver e nada conseguem mudar.
A maioria acomoda-se com resignação
Se cada um de nós tivesse a capacidade de compreender como a sociedade ideal deve funcionar, haveria mais pessoas agindo em prol dos demais, não deixando que os outros resolvam as situações difíceis que se apresentam. Haveria mais generosidade, menos malevolência. Muitos, porém, acomodam-se com resignação à sua condição limitada de cidadão e desistem de tentar mudanças para si e para a comunidade em que vivem. Esses não são cidadãos de fato. Esses são meros espectadores da vida. Esses esperam que um dia sua vida comece. Enquanto isso a vida passa...


