O vocábulo ''autoridade'' provém da palavra latina ''auctoritas'', que, por sua vez, deriva do verbo ''augere'', cujo significado é ''engrandecer, fazer crescer''. O significado que se solidificou entre nós, porém, foi o de, segundo o dicionário Aurélio, ''direito ou poder de se fazer obedecer, de dar ordens, de tomar decisões, de agir, etc.''

Antigamente os pais sabiam exercer esse direito e se faziam obedecer pelos filhos, sabiam dar ordens, sabiam, enfim, usar a sua autoridade. A intenção deles, porém, segundo eles próprios, era ensinar seus filhos a viverem em sociedade, a respeitar os valores existentes, a preservar as tradições. Usavam a autoridade no significado de ''fazer-se obedecer'' para atingir o de ''fazer crescer''.


O princípio de realidade

Hoje, há uma crise de autoridade nas famílias. Muitos são os pais que não sabem agir perante seus filhos num momento de crise destes ou daqueles. Inúmeras famílias se sentem incapazes de configurar o princípio de realidade, termo usado por Freud para caracterizar o adiamento da gratificação. Gratificação, não no sentido de retribuir serviços prestados, mas no de ''dar alegria ou prazer''. Esse princípio freudiano consiste em aprender a conter, dentro de limites razoáveis, os desejos e as vontades. Quando não há uma autoridade firme que saiba impor limites aos jovens, estes não conseguem adiar suas vontades, não por não terem boa vontade para com os responsáveis por eles, mas por não saberem agir dessa maneira porque não aprenderam a agir assim. Não sabem enfrentar as frustrações que se lhes apresentam no dia a dia. A eles o que interessa é o princípio de prazer, outro termo freudiano, que conduz o indivíduo a buscar o prazer incessantemente, a fim de evitar o encontro com o que é desagradável, penoso.

Em muitos casos (talvez na maioria deles) os culpados disso são os próprios pais, que permitem tudo a seus filhos, nada restringindo na vida destes. São crianças com celular, ipod, lap top e com computadores, aparelhos de televisão, de som e de DVD em seu quarto. São crianças que perdem a identidade infantil e se adultalizam, que querem ''tudo aqui e agora''! Elas se acostumam com o ''ter tudo'' e passam a querer mais, mesmo não sendo necessário aquilo que desejam. Transformam-se em consumidores e perdem a referência como indivíduos. Não se contentam com o trivial, com o básico, e querem o sofisticado. Um tênis comum não lhes interessa; querem três, com molejo de última geração, para passear no shopping e ir para a escola; nunca os usando para caminhadas e corridas, fim para o qual o tênis foi fabricado. E se a família não tem recursos para satisfazer os desejos do pequeno tirano com produtos originais e legalizados, vai-se até o camelódromo e compram-se os equivalentes falsificados ou contrabandeados. E alguns partem para o crime, para a violência, a fim de adquiri-los.

Tolerar as frustrações

É missão dos pais ajudar seus filhos a crescer. E isso se consegue estabelecendo regras a eles, das quais a mais importante talvez seja pôr em vigor ''limites''. A criança tem de aprender que não pode tudo. Tem de aprender a tolerar as frustrações. Tem de aprender a adiar o prazer. Tem de aprender a viver em sociedade. Quando a família não ensina isso a seus filhos, estes terão mais dificuldades para conviver com os demais, pois fora de casa não há possibilidades de serem o centro das atenções nem de terem seus desejos sempre consumados. Quando a família não age seguindo o princípio de realidade, a sociedade será obrigada a impô-lo. O problema é que a família o apresenta afetivamente; a sociedade o impõe forçosamente. Desse modo, aumentará a dificuldade de adaptação dessa criança ao seu meio social e também aumentará sua frustração, levando-o a se tornar um adulto insatisfeito com sua vida em sociedade, um adulto que não consegue resolver seus conflitos com os demais nem consigo próprio.

Os ensinamentos que se adquirem com a família têm uma força incomensurável. Pais com autoridade genuína, no sentido de fazer a criança crescer adequadamente, ensinam a arte de bem viver, mesmo enfrentando dissabores na vida. Os seus filhos saberão enfrentar as situações difíceis sem desespero. Já os pais permissivos, indulgentes, ensinam a desvirtude de somente querer viver bem, fugindo aos dissabores. Os seus filhos se perderão no meio do caminho; não saberão encontrar as respostas para as reflexões acerca da vida. Fatalmente se transformarão em seres solitários, mesmo cercados de pessoas.

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