O meu livro de poesias ''O dono do manto da insônia'' completa quinze anos. Em comemoração, acontece no Menina Bar, na Av. Maringá, 1.550, uma exposição com fotos e poesias de minha autoria durante todo o mês de setembro. No dia 27, domingo, às 17h, ocorrerá um recital com as poesias lá expostas.

Durante este mês, aproveitarei este espaço para publicar algumas das poesias do livro. Ei-las:



O poeta de ousada inspiração somente faz arte lícita, somente atinge a felicidade estética, se conseguir equilibrar sutilmente a razão e a loucura.

POEMA LOUCO

Sentados na sacada de um flamboyant, um cachorro e um rapaz tomando cerveja.
Passa um louco tuberculoso cuspindo nacos de fumo.
O mar azul do filme clareando o verde dos xaxins. Antúrio, samambaia, columeia.
Orquídea no carpete da sala. Paulinho nas paredes pintando, Tarsila e Anita em Paris
Cachorros em gaiolas! Há um monte de livros para comprar. Em meus olhos quadros-negros e gizes
Literatura da Semana de Arte. As exclamações dos homens nacionalistas como campainhas avisando que há um cheiro de cultura em Apucarana.
A madrugada desponta com gosto de chuva.
Medo de barata mata tudo. Veneno nas janelas e nas narinas
Depressa! O ipê amarelo, as calçadas amarelas
As ilegalidades na nova república: Não usarei o decreto-lei jamais! Algumas vezes apenas ...
A torre cheia de lâmpadas em vez de um jardim florido. Horta no fundo do pé de maracujá.
Lá embaixo o vale verde. O pequeno córrego escorregando rumo ao Igapó


POEMA DO FINAL DO MUNDO
Toda alma humana anda perdida, desnorteada, sem achar vida.
O fim do século provoca angústia, dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil! Tal sofrimento nunca existiu nem por momentos!
O ser humano é o responsável por essa sina irreversível:
A morte certa. A guerra atômica. O fim de tudo. Nosso destino.
A carne podre se decompondo. Pó nuclear tudo infestando
Bolhas na pele. Câncer no corpo. Terras estéreis. O verde morto.
Não há mais ar! Não há mais mundo! Não há mais nada! Nem mesmo Deus!


CONFISSÕES
Quero sentir no teu rosto um sinal de minha ausência
Quero lamber tuas lágrimas e aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo, pra transcender-me em delírio,
Pra sentir as mesmas dores, tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória o teu cheiro embriagador.
É pra ter mais que certeza de que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte tudo o que nos juntou!


ARREPIO
Pétala macia. Esperança frágil ainda com o pudor da aurora. Há um segredo em sua aura.
A voz escorre alisando a chuva. Pingos batem no asfalto ondulado ao peso dos ônibus.
As estrelas somem e voltam. Embora o amor guarde muitos espinhos,
na escuridão elas ainda sorriem.
Sinto a noite em mim. Segredo de seus lábios. Gritos ousados em seus olhos.
Quando acordo o tempo se converte em vida. Corpos saem para a rua:
Faces comprimidas que não mais sorriem.
Mas não me sinto assim: Apressado, enganado, sofrido, ensanguentado.
Sinto-me música de violino, leveza de brisa, arrepio de beijo.

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