EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de setembro de 2009
Dilson Catarino 
O meu livro de poesias ''O dono do manto da insônia'' completa quinze anos. Em homenagem a isso, acontece no Menina Bar, na Av. Maringá, 1.550, uma exposição com fotos e poesias de minha autoria durante todo o mês de setembro. Numa noite dessas, ocorrerá um recital com as poesias lá expostas. Durante este mês, aproveitarei este espaço para publicar algumas das poesias do livro. Ei-las:
Desencanto
Há vários prédios em minha cidade, / Uns habitados, outros em construção. / Dias desses apareceu mais um buraco, / É mais um prédio que surgirá. /
Na minha infância só havia casebres de madeira, / Paineiras lotadas de painas, / Jabuticabeiras com centenas de olhos negros a me fitar, / Rua de terra batida, / Rua escura, com o povo nas calçadas. / Mas, que calçadas? Não havia nem muro, / Só cerca de madeira quebrada. /
Lembra-me agora o quintal de minha tia: / Limoeiro, abacateiro, goiabeira, / Havia terra por toda parte. / Naquela época, havia esperança por toda parte. / Hoje, resignação madura, / Falta de solidariedade, / Desencanto sentimental.
Minha casa
A minha casa não é para mim / Apenas o meu local de refúgio / Aonde volto para me esconder do mundo / Ou para me adentrar em meu próprio mundo. /
A minha casa é para mim / A minha festa (alegre e eterna) / É entrar em um parar o tempo, / É sorrir, é brincar, é amar. /
A minha casa é para mim / O meu Shangri-lá, minha luz, minha euforia, / Que me seduz, tênue, com vigor, / Que me alimenta, que me apraz em deleite. /
A minha casa é para mim / A harmonia, a graciosidade, / O meu leito de exatidão. / A minha fonte de lucidez. /
Nenhures se igualiza à minha casa / No seu desenrolar preguiçoso / É isso que me faz idolátrico / Por tudo que há na minha casa.
Cumplicidade
Os meus passos contemplam estas ruas / Há cinquenta anos. / Se alguma árvore me avista, / Caminhando pela calçada, / Suspira os dias passados só rindo / E nem se atreve a revelar o que foi vivido / Por entre suas flores.
Passado quebrado
Não há muros intransponíveis, / Não há linhas sempre retas, / Nem há o dia certo; / É melhor deixar tudo para depois / E nada dizer a eles. /
Peixes não adoram deuses, / Talvez por isso sejam tão serenos, / E tudo passe por eles / Como se nada fosse. /
Muros altos, linhas tortas, / Como saber o que fazer? / Durante tanto tempo sem / Nada entender, acordando somente / Com a noite, sem coragem de se / Olhar ao espelho, sem coragem / De crescer; somente olhar à lua, / Sentado à mesa de um bar, / A caminhar pela escuridão, querendo / Ser assim por toda a vida. /
Em mim tudo mudou, e / Ninguém me avisou. / Ainda procuro meus óculos quebrados / Pra enxergar melhor o passado / Que Também se quebrou. / Ainda sinto meus longos cabelos / Cortados como minha liberdade, / Podados como minha ingenuidade.
Poema do pássaro
Passo e repasso com meu passo / Na passarela / Onde já cantou o pássaro. /
Meus pés molham-se / Ao pisar o asfalto molhado. /
Onde dorme o pássaro / Enquanto cai a chuva? /
Sentado no banco do ônibus / Penso no pássaro. /
O que pensa o pássaro? / Nas penas apenas? / Que pena que ele pena. /
O seu canto ecoa / No canto da pia / Onde a mãe / Coa o café /
Durante a manhã do pássaro / Que pia. /
Na manhã do amanhã / O pássaro passará?


