EDUCAR-SE
O PÔR DO SOL
Quem não se sente embevecido ao ver o sol se pondo? De alguma maneira somos atingidos por aquela radiação eletromagnética que provoca uma mistura de cores inusitada e surpreendente. Toda mente humana se amaina ao presenciar tal espetáculo. Mesmo os impassíveis enternecem seu coração no momento em que se postam diante daquela esfera amarelo-avermelhada que aparentemente perde seu vigor e espalha pelas nuvens seu brilho afogueado, tingindo o anil do infinito de uma vermelhidão incomparável. Claude Monet e Pierre-Auguste Renoir, pintores impressionistas, tentaram, dentre outros pintores de renome, retratar essa beleza intangível, mas só conseguiram apresentar aos olhos de quem as aprecia uma noção do que é o pôr do sol. Nem mesmo as modernas máquinas digitais conseguem retratá-lo como ele é. E o que ele é? É pura emoção, que vem da valorização da relação do homem com a natureza. O homem que valoriza essa relação valoriza também a que tem com os demais seres humanos, pois percebe que não está só e que necessita de outrem para se completar.
BEM-ESTAR
Todos deveríamos assistir ao pôr do sol e carregar a sensação de bem-estar provocada por essa visão. Deveríamos ter mais tempo para admirar a magnitude da natureza: a altivez das árvores, a generosidade das flores, a harmonia dos pássaros e o frescor das águas de riachos e cachoeiras. Quem não se maravilha com tão extasiante configuração? Aquele que assim o faz percebe o quão pequeno somos diante do universo, é mais tolerante com os outros e se dedica a lapidar os relacionamentos mais próximos.
TORNAR-SE HUMANO
Há de haver mais humanidade na convivência com nossos pares, mais bondade, benevolência, compaixão, piedade. O ser humano tem de se tornar ''humano'' como quando alguém quer dizer que determinada pessoa é bondosa e fala: ''Ah! mas ele é tão humano...''. Até muda a entonação. Dá ênfase à palavra ''humano''; adocica a palavra. É isso que temos de buscar: a essência da sociedade para construir os valores necessários para a formação de cidadãos que tenham sabedoria, que sejam capazes de conviver em harmonia, que saibam dialogar e exercer a afetividade, a ética, a fraternidade e a solidariedade.
ÉTICA
Fala-se muito sobre essas palavras - principalmente sobre ética, em virtude da imundice que presenciamos no meio político, em todos os níveis. O problema é que se apresentam belos discursos em que se usam tais palavras, mas não se praticam os conceitos contidos nelas, e assim vivemos uma dissimulação em que todos se mostram íntegros, honestos, éticos, mas poucos têm essas qualidades. Os jovenzinhos observam os adultos mais que os ouvem, porque, como disse Nicolai Gógol em seu livro Almas Mortas: ''o exemplo é mais forte que as regras''. Com isso, os jovens percebem a hipocrisia vivida por muitos adultos e a seguem como exemplo, tornando-se hipócritas também.
A ARTE DE BEM-VIVER
A natureza, ao contrário, não é oblíqua, maliciosa, ardilosa; é reta, direita, direta. Todos sabemos o que esperar dela. Conhecemos suas belezas e perigos, fraquezas e forças. Ela é franca, autêntica. O homem que busca a sabedoria aprende com ela e busca o aprendizado observando-a, admirando seus aspectos positivos e aplicando-os em sua vida. O sábio afeta positivamente o comportamento dos demais a fim de lhes acrescentar ternura na vida e de lhes ensinar - pelo exemplo, não pelas regras - que a convivência se torna plena com a valorização dos relacionamentos, com a aplicação do mais básico dos conceitos humanos: o respeito. A natureza é a nossa grande mestra; aprendamos com ela. Busquemos já, então, essa aprendizagem comparando nossos relacionamentos às ações da natureza com a humanidade. Enterneçamo-nos. Comecemos hoje, procurando um lugar em que o horizonte se mostre aberto e admiremos o pôr do sol à busca da melhor virtude humana: a arte de bem-viver.





