EDUCAR-SE
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terça-feira, 19 de maio de 2009
Dilson Catarino 
A língua não é una (com N mesmo), ou seja, não é indivisível; ela pode ser considerada um conjunto de dialetos. Alguém já disse que em país algum se fala uma língua só. Há várias línguas dentro da oficial. E no Brasil não é diferente. Cada região tem seus falares, cada grupo sociocultural tem o seu. Pode-se até afirmar que cada cidadão tem o seu. A essa característica da Língua damos o nome de variação linguística.
Qualquer cidadão, quando resolve emitir algumas palavras, faz isso não isoladamente. As frases ditas por cada um de nós não são construídas por nós próprios, mas sim por tudo o que nos fez tornar o que somos hoje: nossa família, a terra em que nascemos e em que vivemos, as escolas em que estudamos (principalmente nas séries iniciais), as pessoas com as quais convivemos, os livros que lemos, os filmes a que assistimos, enfim, nossa maneira de falar é formada, não é criada. E é formada pouco a pouco. Aliás, nunca é totalmente acabada. Imagine um idoso que nunca aprendeu a ler nem a escrever entrando em contato com as letras; seu mundo se transformará. Ele se apoderará de um conhecimento nunca antes imaginado. Passará a usar expressões desconhecidas até então e se tornará um cidadão de fato. O mesmo acontece com os indivíduos que aprenderam a ler e a escrever, mas que não leem nem escrevem jamais. Se passarem a entrar em contato com o mundo das letras, por meio de romances, contos, textos filosóficos, poesias e textos jornalísticos, transformarão sua visão de mundo e passarão a ter um novo falar, uma vez que terão o que falar: aquilo que leram. Ler é, portanto, essencial para o desenvolvimento intelectual de cada um de nós.
Variação diatópica
O assunto de hoje é, porém, as diversas variedades linguísticas existentes em uma língua. A mais evidente é a que corresponde ao lugar em que o cidadão nasceu ou no qual vive há bastante tempo, chamada de diatópica: dia = através de; tópico = lugar. Há jeitos de pronunciar as palavras, há melodias frasais diferentes de região para região. A variação diatópica mais famosa do Brasil é o s chiante do carioca da gema.
Chiante não é depreciativo ao modo de falar do carioca, e sim um termo usado na fonologia - ou fonética - que representa um som cujo ponto de articulação é pré-palatal, como ocorre nas palavras chá e já. É assim que o carioca pronuncia o s. E da gema significa sem mistura, genuíno, puro. Carioca da gema, portanto, é o cidadão nascido na cidade do Rio de Janeiro; não aquele que para lá foi ou que lá vive há muitos anos.
Outra variação diatópica bastante perceptível pelo visitante é o r retroflexo do londrinense quando pronuncia palavras como porta, carne, certo e do piracicabano quando pronuncia as mesmas palavras do londrinense e também as que têm r entre vogais: cara, cera, tora. Retroflexo significa curvado para trás, flexionado para trás. É o que acontece com a língua quando ocorre a pronúncia das palavras apresentadas: a ponta dela é flexionada para trás, às vezes até exageradamente. É uma pronúncia idêntica à de car em Inglês.
Também o l (letra ele), na região de Pato Branco, PR, que é alveolar, mesmo antes de consoante e no final da palavra. Alveolar é o nome dado à consoante que, quando pronunciada, é articulada com a ponta da língua próxima ou em contato com os alvéolos dos dentes incisivos superiores (o céu da boca). Na região de Pato Branco, pronuncia-se a letra ele de alto da mesma forma que o ele de alô.
Macaxeira, mandioca ou aipim
A variação diatópica pode não ser de som, mas sim de vocabulário, ou seja, de palavras diferentes em sua estrutura. Por exemplo, em Curitiba, PR, os jovens chamam de penal o estojo escolar para guardar canetas e lápis; no Nordeste, é comum usarem a palavra cheiro para representar um carinho feito em alguém; o que em outras regiões se chamaria de beijinho. Macaxeira, no Norte e no Nordeste, é a mandioca ou o aipim.
A variação diatópica pode não ser de som nem de vocabulário. Pode estar na estrutura frasal, ou seja, na frase toda. Em algumas regiões brasileiras é comum a utilização do pronome tu; em outras, não. No Maranhão, no Espírito Santo e no Rio Grande do Sul, um cidadão diria o seguinte: Tu já estudaste Química?. Na maioria dos outros estados, o cidadão diria assim: Você já estudou Química?.
Conhecer maneiras de falar de cidades ou de regiões brasileiras é aprimorar-se culturalmente, é aumentar a bagagem de conhecimento de mundo, o que auxilia na formação completa do indivíduo. Na próxima semana trataremos de outras variações linguísticas.
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