EDUCAR-SE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de maio de 2009
Dilson Catarino 
Mais de um milhão já pediram para mudar de operadora
Já imaginou um tribunal de júri no qual todos trabalhassem de bermuda, chinelos e camiseta sem mangas? É assim que vejo um texto mal-ajambrado, sem os devidos cuidados com a linguagem. Não quero ser aqui o Fiscal da Gramática, mas quero disseminar o bem-falar, quero ser Educador de fato e, como tal, ajudar jovens e adultos a desenvolverem a boa comunicação, escrita ou falada. Não me importa que me tachem de gramatiqueiro. É por meio da Gramática que se aprende a organizar os pensamentos, e isso se consegue pela leitura; quem lê bastante, raciocina bem; somente quem raciocina bem tem condições de produzir bons textos; e produzir bons textos é o mesmo que pensar bem.
Às vezes a Gramática é um tanto ilógica, quase surreal. Isso dificulta mais ainda o seu estudo. Por exemplo, esses dias li uma notícia sobre a portabilidade do número do celular, cujo título era o seguinte: Mais de um milhão já pediram para mudar operadora. Claríssimo! Sem pestanejar, qualquer jovem estudioso da Língua diria estar absolutamente certa essa frase, afinal, mais de um milhão significa, no mínimo, um milhão e um: Um milhão e um já pediram.... Não é bem assim, porém.
Quem é que já pediu?
O verbo deve concordar com o seu sujeito, termo da oração a respeito do qual o verbo enuncia algo. Se o sujeito estiver no singular, o verbo também o estará; se estiver no plural, idem. Para se encontrar o sujeito de um verbo, basta perguntar a este o seguinte: Quem é que ..... ?. A resposta será o sujeito. Na oração apresentada, o sujeito é, portanto, Mais de um milhão, pois quem é que já pediu para mudar operadora? Resposta: Mais de um milhão.
Há uma regra especial de concordância verbal que trata de expressões iniciadas por mais de, menos de, cerca de, perto de acompanhadas por um numeral: quando uma dessas expressões for usada como sujeito, o verbo deverá concordar com o numeral que a acompanha. Na frase apresentada, o numeral que acompanha a expressão mais de é o um, que, obviamente, é singular. O verbo deverá, portanto, ficar no singular: Mais de um milhão já pediu para mudar operadora.
Existência
O velho cão gania à porta da pequena casa.
A lua, espreitando por entre os galhos das árvores,
assemelha-se a lanterna etérea,
reverberando-se por entre a densa neblina.
A passos lentos e pesados reviso minha airosa existência
e sinto que não existo;
são os outros que me percebem como querem que eu seja.
Dói-me o corpo; não posso abaixar-me: escoliose, cifose.
Sinto saudades das andanças por ruas quase desertas,
voluptuosas ruas de minha adolescência,
nas úmbrias madrugadas, com muitas cervejas e amigos.
Não que a tristeza tenha pousado em minha sina;
é só saudade mesmo.
Há muito do meu passado que quero apenas no passado.
Moldei-me; já não sou o mesmo de outrora - estranho se o fosse.
Não tenho tempo mais para frases soltas.
O silêncio habita meu mundo, mas não há o vazio,
não há a solidão ou os sentimentos entorpecidos,
o que há é uma obstinada sensação de veleidade.
As fantasias contorcem-se na essência da memória,
frêmitos lancinantes misturam-se com desejos obcecados,
distendendo meu corpo numa lassidão sublime,
e eu fico sem saber o que o velho cão,
ganindo à porta da pequena casa,
tem de interessante para entrar nessa história.


