EDUCAR-SE
Língua e linguagem têm significados distintos: língua é o conjunto das palavras e expressões usadas por uma nação e o conjunto de regras da sua gramática; é o mesmo que idioma. Já linguagem é tudo o que serve de meio de comunicação entre os indivíduos e que pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos - linguagem visual, auditiva, tátil, etc. A linguagem, portanto, encontra-se num território de liberdade irrestrita, ou seja, cada cidadão tem o direito de falar como bem entender.
Que se descabelem os professores de Português na tentativa de manter a língua intocada, inclusive eu! A população é implacável, pois inventa os falares mais diversos, desprezando a velha gramática normativa e tratando-a com desdém. A gramática que se dane! - diz o branco, o mulato e o negro brasileiros - Quero mais é me comunicar do jeito que me é mais gostoso!. E como é bonito o falar brasileiro! A nossa espontaneidade - que desengessa a língua-padrão e a moderniza - embeleza o idioma, pois lhe dá caráter gozoso, já que é usado com prazer, principalmente as gírias e as expressões que caem no gosto da população.
Claro que eu gostaria de que a língua-padrão fosse respeitada sempre, mas isso é impossível. Quando eu era um jovem professor de Português lutei por isso e transformei-me num Fiscal da Gramática. Hoje, porém, quinquagenário, percebo que é inútil tentar cristalizar a língua. Hoje continuo alertando para o que é certo ou errado na língua-padrão, mas com o objetivo de incentivar os cidadãos a usarem a gramática a fim de que se desenvolvam intelectualmente e, assim, comuniquem-se mais adequadamente, aumentando suas chances de se evoluírem no mercado de trabalho e de terem relacionamentos mais proveitosos.
Em determinado momento, os falares inventados pela população ganham direito de se incorporarem na língua oficial, transformando-se em modo adequado de dizer. É o que pretende o verbo custar. Diz a gramática normativa que este verbo tem os seguintes significados e usos segundo o Dicionário prático de regência verbal, de Celso Pedro Luft, editado pela Editora Ática: O verbo custar pode significar ser adquirido por determinado preço ou valor ou ser conseguido ou obtido à custa de algo ou acarretar consequência, causar, ocasionar ou ainda ser difícil, doloroso, trabalhoso ou custoso. É usado da seguinte maneira: o que é adquirido ou conseguido ou o que acarreta a consequência ou ainda o que é difícil, doloroso é o sujeito do verbo e quem adquiriu ou conseguiu algo ou a quem a consequência é acarretada ou ainda a quem algo é difícil, doloroso é complemento verbal que exige a preposição a - esse complemento pode ser também representado por me, te, lhe, nos, vos, lhes. O complemento verbal pode não aparecer claramente na oração. Por exemplo: O relógio me custou R$ 1.200; Essa casa custa R$ 500 mil; Viver hoje custa os olhos da cara!; A vitória custou-lhes meses de treinamento e sacrifícios; Isso pode custar a sua vida!; A leviandade custou-lhe muito remorso; A precipitação custou-lhe sérios prejuízos; Custa corrigir velhos hábitos; Custou-lhe crer na notícia. Na construção custar + infinitivo, a oração infinitiva é o sujeito de custar, por isso este fica na terceira pessoa do singular (custa, custou, custava, custará...).
No Brasil, surgiu, no séc. XIX, uma inovação sintática considerada inadequada pelo padrão culto da língua até hoje: a construção alguém custa a fazer algo, sendo alguém o sujeito do verbo custar, cujo significado é ter dificuldade, trabalho, desgosto ou demorar, tardar. Por exemplo: Seixas custou a conter-se (José Alencar); As moças custaram a se separar (Clarice Lispector); Renato custou a acordar (Drummond); Custas a vir e, quando vem, não te demoras (Cecília Meireles). Essas construções, apesar de bastante antigas ainda não são bem vistas pelos gramáticos tradicionais. Os livros escolares ainda relutam em oficializar tal modo de falar: Custou-me aceitar a situação é o que a gramática preceitua, mas, no dia a dia, os brasileiros dizem Eu custei a aceitar a situação. Ainda não incorporei isso ao meu linguajar e recomendo que não se use, a não ser na linguagem cotidiana, solta, livre, mas está difícil continuar a resistir. O uso é tão constante que não há brasileiro que não a use e que não a julgue adequada. É o inadequado se tornando oficial. É a vontade da população sobrepujando a vontade dos gramáticos. É a dinamicidade da língua.





