EDUCAR-SE - Para tornar-se mais culto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Dílson Catarino 
O conhecimento das diversas maneiras de falar do país - a variação linguística - auxilia no desenvolvimento da aprendizagem. Pais e professores devem manter-se atentos à evolução da aprendizagem dos educandos para que isso ocorra a contento. Quanto mais se entra em contato com diversas culturas, mais facilidade há para aprender o que é ensinado em sala de aula. O mesmo pode-se dizer dos adultos, pois a aprendizagem não termina jamais.
Muito se fala que as viagens representam mais que mil aulas de Geografia, pois o conhecimento não é transmitido, mas vivido por si só. Conversar com os habitantes do local visitado é conhecer sua linguagem, seus costumes, seu modo de viver. É enriquecer sua cultura. Conhecer a variação linguística diatópica (o modo de falar de acordo com o local em que o cidadão vive) - objeto da nossa coluna passada - é, portanto, tornar-se mais culto.
Variação diastrática
Outra variação bastante evidente é a que corresponde à camada social da qual o indivíduo faça parte. O falar de um cidadão é subordinado ao nível socioeconômico e cultural dele. Quanto mais estudo tiver, mais bem trabalhadas serão suas frases. Quanto mais livros ler, mais cultura terá. Quanto mais exemplos tiver de seus pais e professores, mais facilmente se comunicará com os demais.
Essa variação é facilmente identificada. Basta conversar com um cidadão humilde, com poucos anos de estudos, que já perceberá uma linguagem diferente da habitual de outras classes sociais. Frases como ''Naonde a gente podemos ponhar esse troço aqui?'' ou ''Houveram menas percas'' não são ouvidas em um ambiente em que estejam professores, médicos, cientistas, advogados. São frases comuns a quem não teve oportunidades para ascender a estratos sociais mais privilegiados.
A essa variação, que corresponde ao estrato social, à camada social e cultural do indivíduo, dá-se o nome de variação diastrática.
A variação diastrática, como também ocorre com a diatópica, pode ser de som, de vocabulário ou de estrutura, dependendo do que seja modificado pelo falar do indivíduo: falar ''adevogado'', ''pineu'', ''bicicreta'', é variação diastrática de som. Usar ''presunto'' no lugar de ''corpo de pessoa assassinada'' é variação diastrática de vocabulário. E falar ''Houveram menas percas'' no lugar de ''Houve menos perdas'' é variação diastrática de estrutura.
Variação diafásica
A última variação, não menos importante que as anteriores, é a que corresponde à licença que cada um de nós tem para falar e escrever o que bem entender da maneira que quiser. É a que permite um cidadão extremamente culto usar informalmente a expressão ''Eu encontrei ele'' no lugar de ''Eu o encontrei''. É a linguagem informal, solta, às vezes até desleixada.
Principalmente o jovem tem o hábito de usar essa variação. É bastante comum ouvirmos um ''veio'', com o e aberto, numa conversa entre adolescentes ou um ''mano'' na alta sociedade. É comum também essa variação na linguagem caseira, em que pai, mãe e filhos não estão preocupados com a comunicação dentro da norma padrão, ou na linguagem descontraída de uma roda de amigos. Outra modalidade desta variação ocorre na Literatura, na qual o autor de poesias, contos, romances, novelas, etc. tem a liberdade de cometer deslizes, de inventar palavras, de recriar estruturas sintáticas, enfim, tem liberdade para aplicar seu estilo em seus escritos. Isso tem até nome: licença poética ou liberdade poética.
A essa variação, que corresponde à liberdade de expressão, dá-se o nome de variação diafásica.
A variação diafásica, como ocorreu com a diatópica e com a diastrática, pode ser também de som, de vocabulário ou de estrutura, dependendo da liberdade de que o indivíduo se tenha apossado. Dizer ''veio'', com o e aberto, não porque more em determinado lugar nem porque todos de sua camada social usem, é usar a variação diafásica de som. Um padre, em um momento de descontração, brincando com alguém, dizer ''presunto'' para representar o ''corpo de pessoa assassinada'', é usar a variação diafásica de vocabulário. E, finalmente, um advogado dizer ''Encontrei ele'', também num momento de descontração, no lugar de ''Encontrei-o'' é usar a variação diafásica de estrutura.
A Língua, portanto, não é cristalizada; é dinâmica. Quem manda na Língua é o povo. Nós, gramáticos, não temos de corrigir os erros dos demais, mas, sim, levar a população a querer se comunicar mais adequadamente. O que nos faz chegar a isso é a curiosidade. Quanto mais curioso o indivíduo for, mais pesquisará, mais aprenderá.
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