EDUCAR-SE - PALESTRA-MICO - Parte II
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terça-feira, 06 de julho de 2010
Dilson Catarino 
20h50: uma professora começa a solenidade, dando boas-vindas a todos, dizendo: ''Gostaria de agradecer a presença dos pais, das autoridades presentes'' (Observe o vício, o chavão, pois a única autoridade presente era o vice-prefeito, que, por sinal, era pai de aluno; não estava lá, então, representando o prefeito, e sim como pai de aluno.) e avisando que, depois das solenidades, seria servido um coquetel, que já estava sobre as mesas do corredor, bem ao lado das cadeiras em que os pais se sentaram para assistir à palestra. Colocaram papel de embrulho sobre os pratos.
Os alunos da pré-escola foram chamados para apresentarem um esquete, acompanhados por uma aluna do Ensino Médio, que tocou algumas músicas em seu ''teclado''.
21h05: a professora chama a coordenadora. Esta agradece novamente e apresenta os professores da escola, um a um, que sobem ao palco, também um a um, sob o aplauso da plateia. Eu também sou chamado para, enfim, começar a palestra. Quando subo ao palco, todos os professores me rodeiam e me aplaudem efusivamente. Foi constrangedor: eu, ali, no meio daquela roda de professores aplaudindo.
21h20: (A palestra havia sido marcada para as 20h!) comecei a palestra, usando um microfone dourado, ligado a uma pequena caixa de som, cinco metros atrás de mim, com um fio de apenas cinco metros também. A minha locomoção ficou totalmente prejudicada, além de o som ficar às minhas costas. É muito estranho ouvir a si próprio às suas costas...
Durante a palestra, as crianças que apresentaram o teatrinho ficaram soltas pelo pátio. Algumas corriam em volta das cadeiras onde os pais estavam sentados, passando pelo fio solto do lap top. Cada criança que passava por ali me deixava desesperado, diante da possibilidade de tropeçarem no fio e desligarem o lap top e o projetor. Outras foram para trás da caixa de som brincar de pega-pega. Eram aproximadamente vinte, correndo por todos os lados - inclusive entre mim e a plateia - e gritando. Alguns adolescentes ficaram na calçada, conversando, rindo alto, xingando uns aos outros de vez em quando, como ocorre em qualquer roda de jovens. Outros ficaram dentro da escola, em uma sala com janelas para o pátio externo. Às vezes, um deles aparecia na janela para ver o que acontecia durante a palestra; às vezes, dois ou mais - para eles era uma festa. Almofadas voavam lá dentro.
Gritos se sucediam; das crianças, dos adolescentes, de alguém de lá dentro da sala, da diretora pedindo silêncio aos adolescentes, da professora tentando acalmar as crianças, de alguns pais ralhando com seus filhos. Por duas vezes derrubaram uma bandeja vazia na cozinha. O barulho era infernal, e eu tentando ministrar a palestra. Os pais se levantavam, ora para acudir o filho que caíra, ora para levar o filho ao banheiro, ora para buscar o filho que correra para a rua, ora para conversar com o filho que estava com fome e queria comer logo; alguns se levantavam para fumar, levando outros consigo, e ficavam a conversar, olhando para mim de longe. Houve um momento da palestra em que duas fileiras ficaram completamente vazias para, logo depois, voltarem a se encher. As crianças, curiosas, iam até o parquinho; algumas tentavam olhar por debaixo dos ''embrulhos'', e algumas professoras corriam até lá, gritando com eles e os expulsando.
A minha palestra tem duração de uma hora e meia aproximadamente. Percebi que deveria ser mais rápido dessa vez, principalmente quando a diretora surgiu na entrada do pátio, mastigando alguma coisa e olhando para mim, fingindo interesse. Entrava, ficava um pouco lá dentro - acredito que na cozinha - e voltava mastigando, mastigando. E os demais olhando para o relógio insistentemente, acho que pensando no coquetel que seria servido ao final da palestra e que já estava sobre as mesas, devidamente coberto por papel de embrulho, desde antes das 20h. E já eram 22h!
22h05: Terminei a palestra para alegria geral, inclusive para a minha. Acho que ninguém, absolutamente ninguém, escutou atentamente frase alguma minha. O coquetel finalmente pôde ser servido: tubinhos de maionese, torradinha, coxinha frita, palitinhos de salsicha e azeitona enfiados em um mamão verde, coca cola e tubaína. Estes, os refrigerantes, quentes; aqueles, os salgadinhos, murchos e frios.
A diretora, sempre mastigando algo e, desta feita, com, além das migalhas, maionese no cantinho da boca, diversas vezes veio até mim, enquanto eu desligava o lap top e o projetor, trazendo consigo uma bandeja de algum salgadinho e insistindo que eu comesse alguma coisa. Eu, gentilmente, dizia-lhe que já havia comido ''alguma coisa'' antes de chegar lá e que não tinha o hábito de me alimentar à noite, principalmente àquela hora.
Rapidissimamente consumiram quase tudo o que havia e foram-se embora. Às 22h25 despedi-me da diretora (com sujeirinha no canto da boca - na dela; não na minha) e da coordenadora, saí de lá e fui jantar, sozinho, em uma pizzaria na cidade vizinha, onde estava hospedado, rindo-me de tudo o que havia acontecido naquela noite.


