Num jornal da região havia a seguinte frase como manchete do dia: ''Londrina reprova no teste da transparência'', acerca da Lei nº 12.527/11, que passou a vigorar neste mês. A Lei diz que os órgãos públicos têm de fornecer um sistema, denominado de Sistema de Informações ao Cidadão (SIC), para garantir a qualquer interessado a possibilidade de obter as mais variadas informações. Segundo a reportagem, na Prefeitura de Londrina, na Câmara de Vereadores e no Fórum, há desconhecimento da lei, morosidade e falta de informações.
Assim que li a manchete do jornal, fui tomado de um estranhamento incontinente. Notei que faltava algo na frase; faltava um complemento para o verbo ''reprovar'', que é um verbo indicador de ação-processo. Tais verbos, segundo o Dicionário Gramatical de Verbos do Português Contemporâneo do Brasil, de Francisco da Silva Borba - Editora Unesp, ''denotam ações realizadas por um sujeito agente ou de uma causação levada a efeito por um sujeito causativo (aquele que provoca um efeito ou o que causa a ocorrência de uma ação ou de um processo), que afetam um complemento'', ou seja, as ações realizadas pelo sujeito afetam o complemento do verbo. Como na frase apresentada há um verbo indicador de ação-processo, este tem de ter um complemento, mas não o há.
Vejamos os significados e usos do verbo em questão:
O verbo ''reprovar'', como visto acima, indica ação-processo com sujeito agente:
- Com complemento expresso por nome não animado, segundo o dicionário citado, significa rejeitar: ''Os técnicos da Fiat reprovaram o motor a álcool''; ''O próprio orador não acolheu a informação, reprovando-a''; ''O desenhista trouxe vários cartazes, mas o assessor reprovou todos''.
- Com complemento, apagável (ou seja, pode ser omitido da frase), expresso por nome humano, significa não aprovar; julgar inabilitado: ''Havendo um só candidato, a eleição se faz num único turno, devendo os eleitores do colégio apena aprovar ou reprovar o candidato''; ''O futuro piloto fará testes práticos e teóricos que poderão reprová-lo''; ''O professor Luís reprovou grande parte dos alunos''; ''Clóvis é um professor que não reprova''. Observe que nessa última frase, o complemento foi ''apagado'', mas há um sujeito agente - o professor - e um complemento não mencionado - alunos.
Pode ainda o verbo ''reprovar'' indicar ação com sujeito agente e com complemento, apagável, expresso por nome humano. O verbo indicador de ação denota atividade expressa pelo verbo e realizada pelo sujeito agente; indica, assim, um fazer por parte do sujeito: ''O pássaro voa''; ''O homem pensa''; ''O garoto brinca''. O verbo ''reprovar'', neste caso, significa ''censurar, criticar'': ''João Batista reprovava o entusiasmo fora de propósito''; ''Gostaria tanto de que você não me reprovasse''; ''A mãe olhava aquela bagunça e reprovava sacudindo a cabeça''. Na última frase, o complemento não foi mencionado, mas há-o.
Você, leitor estudioso, agora se pergunta: ''Mas não foi feito isso na manchete apresentada?'' ou seja, o complemento não foi mencionado. Respondo-lhe: o complemento do verbo ''reprovar'' pode não ser mencionado, mas há de ser um termo paciente - aquele que sofre a ação praticada pelo sujeito agente. Nas frases em que isso ocorreu neste texto, está claro que o sujeito é agente (O professor Clóvis e a mãe) e está também claro que o complemento é paciente (Os alunos não são reprovados; a bagunça é reprovada). Já na frase apresentada como título deste texto, o sujeito - Londrina - não é agente; se o fosse, deveria haver um termo paciente, que seria o elemento rejeitado, ou julgado inabilitado, ou criticado. Porém, Londrina rejeita quem? Julga quem inabilitado? Critica quem? Ninguém! Londrina é que é reprovada no teste da transparência. Os jornalistas testaram os órgãos públicos de Londrina e os reprovaram, julgaram-nos inabilitados.
Já que Londrina é o termo paciente e já que não surge o termo agente, o ideal seria construir a frase com sujeito paciente e omitir o agente, ficando assim estruturada:
LONDRINA É REPROVADA NO TESTE DA TRANSPARÊNCIA.

mockup