Cheguei à escola onde daria a palestra às 19h35. À frente do prédio estava a coordenadora, esbaforida, pois havia esquecido a chave do portão. Apresentei-me a ela e ao senhor que a acompanhava; conversamos um pouco, até que surgiu um carro veloz, do qual desceu uma senhora arredondada e um tanto corcunda - a diretora da escola - mais esbaforida que a coordenadora, correndo e gritando: ''Tá aqui a chave!'', ''Tá aqui a chave!''. Eram 19h40.
Entramos na escola. Passamos por um longo corredor, com várias portas de ambos os lados que dão acesso às salas de aula, até chegarmos à biblioteca - uma pequena sala de uns 20m2, que seria inaugurada naquela noite, em homenagem a um pequeno aluno que falecera havia algum tempo. Encaminhamo-nos ao pátio externo, onde aconteceria a palestra. Ficava ao lado do parquinho das crianças, onde todos os brinquedos - escorregador, labirinto, roda-roda (sei lá se os nomes são esses mesmos) - foram literalmente ''embrulhados'' pelas professoras com papel crepom para que ninguém os visse de fato. A escola preparara uma festa, pois inaugurariam também o parquinho naquela noite.
Aos poucos os convidados foram chegando e sentando-se nas cadeiras adrede preparadas - umas cento e dez cadeiras. Enquanto isso, preparei o meu material: instalei o lap top e o projetor e pendurei os fôlderes do Sistema Maxi. Estava pronto para começar. Fiquei um pouco preocupado, pois a tomada elétrica em que liguei a extensão ficava a uns 2m de altura; o fio, então, ficou pendurado, solto na parede, descendo até o chão. Da parede até a mesa em que estava o lap top havia uns 5m; o fio, também solto. Eram 19h55.
20h: a coordenadora pega o microfone - Vamos começar! Pensei cá comigo. Enganei-me; ela apenas pediu que os convidados saíssem pelos fundos do pátio para presenciarem a bênção do ''Cristo'' da escola pelo padre da cidade. Todos se levantam e se dirigem para onde ela havia indicado, passando sobre o fio - que estava solto! Eu, ao lado da mesa, pedia: ''Cuidado com o fio. Cuidado com o fio''. Felizmente ninguém tropeçou nele. A diretora, depois que a maioria já havia passado, interveio, mastigando alguma coisa, dizendo que se enganaram: não era para sair pelos fundos, e sim pela frente. Todos voltam em um burburinho de reclamação. E eu, ao lado da mesa, mais uma vez desesperado: ''Cuidado com o fio. Cuidado com o fio''. Ninguém tropeçou, felizmente.
Eu fiquei por ali mesmo, fingindo mexer em alguma coisa importante. Não tardou para a coordenadora e a diretora, novamente esbaforidas, voltarem correndo para me buscar a fim de que eu também participasse da solenidade. Acompanhei-as até a frente da escola, onde colocaram uma mesa que serviria de altar e onde estavam o padre e todos os convidados, tomando a calçada e toda a rua, esperando-me para começar uma missa (mas, não seria apenas uma bênção?). A diretora, já menos esbaforida e com algumas migalhas de algo parecido com pão no canto da boca, levou-me até o altar e entregou-me um turíbulo, pedindo que eu o segurasse para o padre - turíbulo, aliás, que não foi usado em momento algum; apenas fiquei-o segurando o tempo todo. Começa a missa. O cameraman liga sua aparelhagem para filmar a solenidade, com um holofote imenso, direcionado ao padre e a mim.
A missa durou uns vinte minutos. É importante informar que a temperatura, naquela noite, estava em torno de 28 graus e que eu estava de terno e gravata. Aquela lâmpada sobre mim deve ter aumentado a temperatura para uns 32 graus. Eu me sentia derreter...
Terminada a missa, depois de eu ter espargido água benta na frente da escola a pedido da mastigadora diretora, chamaram-me para descerrar a fita inaugural da escola, que não estava sendo inaugurada; ela já funcionava havia dois anos. Mais uma vez o holofote sobre mim. Finalmente entramos na escola. O padre foi espargindo água benta de sala em sala, até chegarmos à biblioteca. Adivinhem quem segurava o recipiente com a água benta para o padre: eu, logicamente.
Na biblioteca havia, em uma das paredes, uma fotografia do menino homenageado sob uma pequena cortina que seria aberta, simbolizando a inauguração. A sala ficou superlotada (e o holofote sobre mim; e eu de terno; aliás, só eu de terno; os demais de jeans e camisa de manga curta - uns e outros de bermudas...). A coordenadora chamou a família do menino, e a diretora, ainda com as migalhas no canto da boca, leu um discurso de aproximadamente quatro páginas. Ao término, uma das presentes puxa uma ave-maria. Acabaram rezando umas doze. Enfim inauguraram a biblioteca e convocaram todos para o pátio externo. Saí daquela salinha suando em bicas, passei pela cozinha, que era contígua à biblioteca, e pedi um copo d'água. Uma professora lavou um copo que estava embaixo da pia e me serviu água da torneira, já que, segundo ela, haviam esquecido os copos descartáveis e as jarras para colocar água... (Continua na próxima semana)

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