Assim que terminei a palestra, veio até mim uma jovem senhora a fim de me indagar acerca de um problema que ela enfrentava com seu filho Estava ela um tanto quanto ansiosa; aliás, a ansiedade parecia ser uma característica inata a ela; percebi isso pela maneira como piscava os olhos e pela inquietação das mãos, a arrumar os cabelos, o vestido, as pulseiras, numa constância até irritante Pareciam ações sincronizadas: a cada conjunto de piscadelas - eram três, rápidas e sequenciais - um arrumar de cabelos, um ajeitar o vestido, um chacoalhar de pulseiras
A pergunta que me queria fazer era referente ao problema conhecido como distúrbio de déficit de atenção, DDA Disse-me ela que esse era o diagnóstico de seu filho; ele sofria de déficit de atenção, e ela queria saber como poderia proceder para ajudá-lo, pois ele estava prestes a reprovar Perguntei-lhe, então, quem havia feito tal diagnóstico e se ele estava em tratamento, ao que me respondeu que havia sido uma psicóloga amiga dela, que ia muito à sua casa, e que ele não estava em tratamento Ela estava tentando ajudá-lo em casa mesmo com auxílio dessa amiga O garoto não frequentava o consultório dela; ela é que, quando ia à casa deles, aproveitava para observá-lo e dar ''dicas'' à mãe quanto a como proceder
Adverti-lhe, então, que não era dessa maneira que se chegava a um diagnóstico preciso - o que não é fácil, segundo especialistas - e que tem sido muito comum familiares e mesmo professores julgarem estar diante de um quadro de DDA, mas um profissional qualificado, depois de alguns meses de observação e de análise para saber se o paciente tem os dezoito sintomas, pode chegar à conclusão de que o problema é outro, que não o DDA Alguns profissionais inexperientes, inclusive, diagnosticam o DDA erroneamente
Continuei a conversar com ela, indagando-lhe o que a levava a ter certeza de que a amiga estava certa Respondeu-me que alguns professores lhe disseram que ele ficava muito distraído durante as aulas, e que, por mais que o chamassem à atenção, nada era suficiente para que ele se sintonizasse E em casa também, ele tinha muita dificuldade para fazer as tarefas escolares E também que sempre fora aprovado ''raspando'' Já havia, aliás, ficado para exame final várias vezes Perguntei-lhe, finalmente, como era a relação filho-mãe-tarefa Pela resposta dela pude constatar que realmente seu filho não tinha DDA O problema dele era outro: mimo demasiado Explico-lhes:
A relação filho-mãe-tarefa era a seguinte: ela lhe preparava um lanche, com suco ou refrigerante, sanduíche ou pão de queijo, café ou chá, sentava-se ao lado dele, lia (ela lia) em voz alta o ponto a ser estudado, lia as perguntas e cada alternativa, discutia com ele o que poderia estar certo ou errado, explicava-lhe o que ele não havia entendido, enfim, ela estudava para ele O único trabalho que ele tinha era o de ouvir mamãe estudando e fazendo as tarefas por ele
Nesse ínterim, atinei que a palestra era direcionada a pais e mães de alunos do Ensino Médio, não aos do Fundamental; pais de jovens de 14 a 17 anos Então, perguntei-lhe em que série o filhinho estava A resposta: 2º ano do Ensino Médio Ela estudava por um adolescente de 16 anos! Mas, não contente com tudo isso, fiz-lhe mais uma pergunta: desde quando fazia isso? Resposta: desde a quinta série! Havia seis anos, ela lia todos os textos, resolvia todos os testes, fazia todas as tarefas E ele? Tomava um lanchinho e a escutava Quem estudava era ela Por isso a dificuldade dele para ser aprovado!
Lógico que aluno algum quererá prestar atenção ao professor, enquanto este tenta transmitir seus conhecimentos Lógico que ele olhará para o nada, pensará nada durante as aulas Ele sabe que, quando chegar a casa, terá mamãe pronta para resolver todos os seus problemas escolares e para lhe explicar detalhadamente tudo que está no material didático O problema dele não era DDA, e sim a própria mãe! Ela certamente seria aprovada com louvor; ele, como jamais estudou, não
Essa mãe não é a única a fazer isso Não é a única a ''estragar'' o jovem Às vezes, a superproteção é mais nociva que o abandono, pois o abandonado, não raro, aprende a ''se virar'' por necessidade, e o superprotegido não aprende a viver por conta própria, sempre necessitando de alguém para tudo As tarefas escolares são de responsabilidade do estudante; no máximo, pode haver uma ajuda para que ele aprenda o caminho adequado, mas quem tem de estudar é ele; quem tem de realizar as tarefas é ele
Aliás, seria muito interessante que os pais acostumassem seus filhos a cumprirem regras desde pequeninos: levar prato e talheres à cozinha, lavá-los se já forem grandinhos, guardar suas roupas, sujas ou limpas, no lugar adequado, guardar o material escolar, arrumar a cama, limpar o banheiro depois de banhar-se, organizar suas coisas, enfim, ter responsabilidades, não somente privilégios Quem quiser formar cidadãos conscientes de suas obrigações de cidadão deve ensiná-los a ter deveres, não somente direitos

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